Confesso que de forma até inesperada, o mockumentary Vândalo Americano, série original NETFLIX, recebeu uma 2a temporada. Não que fosse uma série ruim (confira a crítica da 1a temporada), mas ao servir como sátira para um dos maiores sucessos da plataforma, “Making a Murderer“, não teria ao que dar continuidade, já que ambas as séries encerram com ganchos parecidos: fica muito claro para o telespectador que armaram para seus protagonistas e que o autor dos crimes não foi pego. Com a 2a temporada de “Making a Murderer” em produção, qual seria o ponto de partida de Vândalo Americano?

Dessa vez o crime a ser investigado acontece em uma escola particular católica para ricos em Washington, onde ocorre um evento escatológico que passou a ser conhecido como “o surto” (the brownout). A limonada da escola foi batizada com um tipo de laxante e durante o almoço dezenas de alunos correram para os banheiros que não deram vazão àquela quantidade de gente. Era gente cagando nas pias, mictórios, lixeiras, corredores e até mesmo no refeitório. O autor desse ato hediondo, o Merdolino (The Turd Burglar), assume a autoria em um perfil no Instagram e começa a caçada atrás de sua identidade.

De uma forma bem divertida, os personagens que conduziram a investigação da 1a temporada – que, nesta 2a temporada, é contada como uma história que veio a ser relançada pela NETFLIX após o sucesso original no Vimeo – tentam solucionar o caso enquanto lidam com autoridades e suspeitos. O bode expiatório dessa vez é Kevin McClain (Travis Tope), conhecido também como Cagado McClain (shit stain McClain), que confessou a autoria dos atentados (mais de um ocorreu) e que encaixava no perfil do crime.

Vândalo Americano ainda se inspira fortemente no “Making a Murderer”, mas dessa vez foca em como o Cagado é tratado como Brendan Dassey – o acusado de Making a Murderer que confessou um crime sob forte coação – pelas autoridades (in)competentes. Também temos referências aos massacres escolares quase que rotineiros nos EUA, com o Merdolino tendo como alvos certos grupos que o tratavam de forma cruel. Há até uma discussão tímida sobre a relação de vítimas de bullying e alunos com posturas fora dos padrões comportamentais, que são vistos sempre como suspeitos.

No mais, ainda temos a mesma pegada da 1a temporada. O processo investigativo procura suspeitos e motivos, desvenda mentiras e lida com instituições com intenções obscuras. O mais interessante foi a adição de especialistas dando estatísticas reais sobre as circunstâncias que ocorrem na série, como, por exemplo um advogado informando que 1/3 dos crimes confessados por menores são obtidos sob coação (que foi o caso de Brendan Dassey em Making a Murderer). Essas pequenas aparições deram um ar de seriedade maior que faltou na 1a temporada e criou um contraste marcante entre piadas de cocô e questões relevantes para nossa sociedade.

Contudo, mesmo sendo bem produzida e atuada, é difícil ficar 100% investido na resolução de um caso que envolve gente cagando nas calças, apesar de ser engraçado. A fórmula ainda é repetitiva e cai no mesmo ciclo de elencar um suspeito, percorrer seus motivos e oportunidades e depois descartá-lo por um forte álibi ou uma nova informação. Por ser uma série com 8 episódios curtos e não ser necessário ver a 1a temporada, Vândalo Americano cumpre sua dupla função: entretém e critica nossa sociedade.

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