Esta semana estreou na Netflix um filme que não é original desse serviço de streaming, mas que não veio para os cinemas do Brasil. Portanto, funciona para nós como uma estreia como qualquer outra. Trata-se de Verónica, de Paco Plaza (atenção, pois há no catálogo uma outra obra homônima, com mesmo ano de produção e também em castelhano). O que estamos a falar é título de terror no seu sentido mais estrito.

Aqui temos uma narrativa com todos (mas são todos mesmo!) elementos de um filme de terror padrão: Verónica (muito bem interpretada por Sandra Escacena) é uma adolescente de 15 anos, que, ao brincar com as amigas com uma tábua ouija, liberta uma entidade sobrenatural que irá persegui-la e a sua família. Nesse momento, você para de ler o texto e desiste de ver o filme, certo? Já são tantos títulos assim que não vale à pena insistir em mais um. Errado. Como disse, o filme em questão tem todos os elementos de um terror padrão, mas em nenhum momento eu disse que ele era um filme de terror padrão pura e simplesmente. É, sim; mas não só.

Verónica em seus raros momentos de adolescente comum.

Verónica cuida de seus três irmãos pequenos, pois a mãe trabalha o dia inteiro até a madrugada. Perderam o pai e isso também é mais um dos problemas que a adolescente, com grande carga de responsabilidades, tem que administrar. É como uma mãe solteira precoce, já que assume as tarefas de genitora, vez que a provedora está tratando de resolver as necessidades mais imediatas da família. E essa falta que o pai faz é o motivador do, possivelmente, único erro cometido pela jovem em seu pouco tempo vivido até aqui: o tabuleiro de ouija surge como uma possibilidade de contato com ele. Mas, como já sabemos, é esse engano que vai resultar em todo o enredo aterrorizante da narrativa.

Verónica começa a atuar de maneira estranha a partir de então. Ver sombras monstruosas, ter sonhos bizarros, sofrer de paralisia inexplicável são algumas das consequências sentidas pela menina de 15 anos. No entanto, esses elementos não se restringem à sua pessoa; eles começam a se manifestar na casa, afetando também seus familiares. O terror vai ganhando proporções cada vez maiores e mais sufocantes enquanto Verónica vai se afundando nas experiências sobrenaturais que a rodeiam. Chega um momento em que passamos a duvidar se tudo aquilo, de fato, pode ser um contato de outro plano ou se são loucuras da mente de uma jovem que vão engolindo cada resquício de sanidade que, porventura, tenha sobrado.

Verónica e sua mãe: tentativa pela sanidade.

Paco Plaza dirige com firmeza, pois não é de hoje que ele produz terror, colocando-nos em várias cenas de pavor. Mas há um detalhe que faz desse filme um pouco mais especial; e é isso, mais do que o resto, que o tira da lista de filme padrão. Todo esse clichê que foi citado até aqui (a adolescente, o tabuleiro ouija, as manifestações espirituais e o enlouquecimento da pessoa envolvida com o ritual) é uma história real. O filme segue a narrativa do relato do policial que investigou o acontecimento em 1991, na cidade de Madrid. Diz-se ser o único relato policial da Espanha no qual o investigador registra seu testemunho de fenômenos paranormais. E, como se não bastasse isso, para os céticos de plantão, antes dos créditos o amigo Plaza faz questão de nos colocar de frente para as fotos reais tiradas pelos peritos policiais do cenário encontrado no apartamento daquela família. E, cara, é tenebrosamente assustador!

Existe uma saída?

Por vezes, aquilo que definimos como clichê, e que por isso tendemos a desmerecer, deixa de ter essa nomenclatura na mesma hora quando nos cruza o caminho. Se você acredita ou se é cético, não faz diferença. O relato policial e as fotos da investigação continuam ali, martelando na sua mente, enquanto você revê o filme na sua memória.

Sugestões para você: