Hollywood, após os absurdos excessos do Macartismo durante a chamada era de ouro do cinema e perfeitamente exemplificados pelo excelente “Trumbo”, estrelado por Bryan Cranston, deu uma guinada forte à esquerda e ao que eles chamam de liberalismo (não confundir com o econômico), com boa parte de suas estrelas apoiando os políticos democratas dos EUA, bem como governos de esquerda por todo o mundo. Há, portanto, uma demonização da classe artística e da intelectualidade por parte da direita nos EUA representada pelo partido republicano (que se coloca mais ao lado do homem comum), assim como há também uma pretensa certeza por parte desta esquerda, representada pelo partido democrata, de que ela detém o monopólio do bem, de que somente por meio das práticas da esquerda americana (que não é lá assim bem uma esqueeeerda) algo de bom pode ser alcançado. Tá parecendo com algum país no qual vocês talvez vivam?

O resultado disso é que há uma infinidade de filmes exaltando uma agenda prafrentex de esquerda – e aqui você pode colocar tudo desde racismo e feminismo até homofobia e lutas pelas liberdades civis em geral – e uma quantidade menor, mas expressiva, de filmes que demonizam a direita. E é exatamente esse o caso de Vice, tendo este a vantagem de ter um elenco em absoluto estado de graça e um diretor que parece cada vez mais longe das comédias de besteirol com o Will Ferrel, como o hoje clássico cult “O Âncora”, emplacando aqui, depois do também muito bom “A Grande Aposta” (vencedor do Oscar de melhor roteiro de 2016) sua segunda comédia “séria”, com ambas funcionando como uma sátira em que as coisas não precisam ser ridicularizadas porque elas já são ridículas por si mesmas.

Se antes Adam McKay acertara ao olhar com incredulidade e espanto a sucessão absurda, negligente e criminosa de acontecimentos que levaram à última grande crise econômica global, aqui ele acerta novamente ao, mais uma vez, se mostrar atordoado pela verdade das circunstâncias que giram em torno da ascensão de Dick Cheney ao poder nos EUA, ainda que, embora se coloque como um arauto da verdade, o faça de forma um tanto forçada para que se encaixe em sua agenda política.

A questão política, contudo, é totalmente irrelevante no que se refere aos pontos positivos do filme. Com um roteiro primoroso e sofisticado – com idas e vindas no tempo e contando com um narrador que você não entende exatamente quem é até o momento certo – e uma direção solta na medida certa em função do elenco absurdo e azeitadíssimo aqui, se o espectador olhasse para a questão toda como ficção, a obra já seria bem interessante por causa de sua estrutura, atuações, diálogos e roteiro. Sabendo que ela toda se baseia em fatos reais, muitos deles documentadíssimos e refletidos com bastante precisão na tela, o impacto causado no espectador é ainda mais forte, sendo, contudo, bem importante que todas as circunstâncias acima sejam levadas em consideração na hora de se ter um senso crítico sobre o longa.

O maior acerto da produção é, sem dúvida, seu elenco. Contando com uma dupla de protagonistas que talvez sejam o melhor ator e atriz de sua geração, Christian Bale como Dick Cheney e Amy Adams como Lynne Cheney, o filme todo se desenvolve quase que como algum esquete qualquer dos Trapalhões, o que é uma comparação bem bizarra, confesso. Bale, contudo, é um ator de tamanha generosidade que sua presença em tela engrandece absolutamente todo mundo com quem ele contracena, em especial Steve Carrel como Donald Rumsfeld e Sam Rockwell como George W. Bush. Cheney não era um homem particularmente interessante no que tange seu carisma e Bale consegue passar isso muito por que ele age quase que como um Dedé Santana, protagonizando uma comédia na qual o protagonista é o escada de luxo que quase nunca faz rir, mas permite que todo mundo ao seu redor brilhe nesse sentido. Não é a toa que Bale como ator principal e Amy Adams e Sam Rockwell como coadjuvantes foram indicados ao Oscar, embora eu concorde com a tia do ritmo, Marco Medeiros, de que Steve Carell tenha merecido mais que Rockwell.

Para além disso e do discurso panfletário, temos uma poderosa obra sobre a relação do homem com o poder e sua obsessão em simplesmente poder usá-lo, em uma interpretação muito semelhante a de Frank Underwood de “House of Cards“. Cheney, assim como Underwood, parece quase não ligar para dinheiro. Após uma carreira sempre discreta como congressista ou secretário de alguma pasta do governo americano, ele teria largado a política por causa de sua filha (não direi o porquê para evitar spoilers) e se tornara CEO da Halliburton, uma das maiores petrolíferas do mundo. Isso quer dizer que ele se tornara um homem milionário e cargo público nenhum do mundo poderia render a ele nada perto do que ganhava como presidente de uma multinacional bilionária. Ainda assim, entendendo ter em George W. Bush o títere perfeito, Cheney aceita ser seu vice. Não pelo status, já que o cargo de vice, como ele e sua mulher dizem, é inútil. Mas por que, dada à evidente e documentada fraqueza intelectual e de fibra do Bush filho, Dick Cheney pôde usar e abusar do poder como se presidente fosse, sem que jamais tivesse sido eleito nesta capacidade. Pergunto de novo, tá parecendo com algum país no qual vocês vivam?

Finalmente, ainda que a obra consiga um equilíbrio interessante entre o Cheney homem de família e o governante implacável, ela, sem exagero algum, nos leva a crer que absolutamente todos os problemas mais falados do planeta atualmente são culpa exclusiva da chapa Bush/Cheney e suas guerras inventadas a troco de nada. O filme se esquece que muito do que foi decidido foi sancionado por um congresso majoritariamente democrata e que o governo Obama demorou muito tempo até fazer alguma coisa em relação às invasões de Iraque e Afeganistão, sem que jamais tenha retirado a presença americana destes países. Isso sem contar que Hillary Clinton foi uma das principais apoiadoras democratas da guerra. Tudo, sem dúvida, na esperança dos votos da eleição seguinte.

No mais, há também problemas de ritmo, causados até mesmo pelo virtuosismo do roteiro, que fazem com que haja a impressão de uma pequena barriga na obra, e uma trilha sonora que ora é excelente, ora parece uma mera variação do tema de abertura da House of Cards, o que não é necessariamente ruim, mas incomoda.

De todo modo, a lição que Vice tenta nos ensinar é simples. O homem quer poder não necessariamente para ganho financeiro ou quaisquer outras vantagens, mas quer poder pelo poder, porque tê-lo é melhor do que não tê-lo e perdê-lo depois de tê-lo é a morte. Quem chega ao poder, portanto, não quer largar de mão e a política é, fundamentalmente, um cabo de guerra entre quem quer o poder e quem o detém, com os interesses da população, que é de onde o poder pretensamente emana, ficando sempre relegados a segundo plano. E esta lição, seja ela esquerdopata ou coxinha, é sempre pertinente, em especial quando encenada com tamanha competência.

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