O título do primeiro longa-metragem de Coralie Fargeat é tão direto quanto o próprio filme em si. Vingança é uma obra francesa, dirigida por uma mulher, cuja protagonista é uma mulher no meio de três homens, cercada por deserto e nada mais. Uma alegoria, da mesma forma direta quanto tudo nessa produção, sobre como a sociedade sempre foi e ainda é extremamente nociva às mulheres, de uma forma geral. A partir dos elementos aqui descritos, já é bem possível traçar os principais acontecimentos do longa, que não se mete a surpresas, plot twists ou “sacadinhas”. O negócio aqui é cru e “TRU” (como gostam de falar por aí a palavra “true” em sinônimo de algo sincero).

Jen (Matilda Anna Ingrid Lutz) é amante de Richard (Kevin Janssens) e os dois estão em uma bela casa de veraneio (ou algo que o valha), curtindo uns dias de sexo louco, enquanto esperam dois amigos dele para que os três homens participem de uma caça no deserto local. A beleza de Jen é incontestável e, após uma noite de festa entre os quatro, provocativa aos olhos de um dos convidados. Na manhã seguinte, tendo o galã Richard saído para resolver assuntos de seus camaradas, um dos comparsas resolve dar continuidade àquilo que interpretou como condição sexual por parte da garota, na noite anterior. Percebendo que não era intenção da moça, sentindo-se desafiado em sua masculinidade, o zé rola parte pra cima e estupra a indefesa amante do amigo. Ao voltar para casa e vê-la destruída em seu trauma absoluto, o namorado (em uma síntese enfadonha e maniqueísta) sugere que ela esqueça o ocorrido, já que “é muito difícil para um homem se controlar diante de sua beleza” e que o amigo pediria desculpas. Percebendo que não surtirá o efeito desejado, ele tenta tirar a vida da companheira, jogando-a de um precipício.

Caçadores.

Aqui o filme já começa a desandar um pouco, pois as alternativas de solução são para além do inverossímil. Eu sempre me pergunto, de tempos em tempos, porque um roteirista coloca seus personagens em situações improváveis de solução. Parece-me que eles se aprisionam na própria armadilha. “O espectador vai perceber se você chamá-lo de burro”, disse certa vez o ilustre cineasta David Mamet, “e você o perderá nesse momento”. É bem isso que acontece. A pessoa cai de um longo precipício em cima de uma árvore só com galhos, é perfurada em várias partes, mas sobrevive na medida do possível e consegue escapar. E, obviamente, entramos aqui no título do filme: Jen buscará sua vingança, caçando efetivamente cada um dos três zé trolha.

A narrativa, então, adentra numa série de sequências splatter, com banhos de líquido vermelho, por vezes resultando em imagens bastante evocativas. No entanto, se você torcer o filme tal qual um pano de chão que limpa essa sujeira, não restará nada além de estética e cenas deliberadamente desagradáveis. Aliás, isso é tipicamente francês: quando se tem muito pouco a dizer – ou quase nada – opta-se por imagens belíssimas, de estética impecável, e acontecimentos brutos que impactam o espectador. Como se esses recursos pudessem esconder a falta do que dizer no filme; como se sua ausência de profundidade, explícita em personagens por demais rasos e em uma narrativa tão profunda quanto uma poça d’água, fosse ser maquiada por linda fotografia e planos e toda aquela brutalidade de querer fazer o olho desviar da tela.

…e presas.

Por outro lado, a alegoria da mulher indefesa em meio a três brutamontes que resumem a essência masculina padrão, sem ninguém para defendê-la e ajudá-la, tendo ela que agir sozinha para se mostrar forte e imponente nesse universo nada convidativo; para declarar, através de seus atos, que é muito mais do que uma carcaça de beleza; poderia ser muito melhor aproveitada. Tirando a necessária e imperativa catarse feminina de destruição desse modelo ameaçador encarnada por Jen, o filme se resume à perseguição pura e simples de uma pessoa à outra. Apenas isso e isso tão somente. E nada além disso.

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