Confesso que assistir ao trailer de Vox Lux não é lá um convite particularmente tentador. Nesses minutos de apresentação do longa, tive a impressão de se tratar de um filme de uma diva pop e não consegui discernir se a personagem era ou não fictícia. Não faz meu tipo de filme, concluí. Fui ao cinema para assistir mais que o trailer sem expectativas, até um pouco desanimada, eu diria.

Celeste (Natalie Portman) era uma menina comum que estudava num colégio católico e tinha aulas de música clássica. Até que um dia, em meio a uma dessas aulas, a escola sofre uma carnificina praticada por um aluno armado e que havia planejado o assassinato de seus colegas de classe. Uma tragédia – infelizmente banal nos EUA e cada dia mais mundo a fora – que divide águas na vida da garota, que é a única a sair com vida do massacre.

Depois da experiência de quase-morte, a garota volta à vida moldada e mudada pelo acontecimento. É a partir de uma música escrita por ela e a irmã, Eleanor (Stacy Martin), que ela acha uma forma de expressar a tristeza daquela perda de colegas e também de lidar com o fardo de sobreviver no meio de tantos cadáveres. Desse gesto puro nasceria outra Celeste, pondo pra adormecer a menininha de antes do massacre. Nascia ali a cantora pop, comercial e em perene reinvenção, inconstante e imprevisível.

A personagem de Celeste é perturbadora. Sua humanidade é reduzida frente à rotina capitalista de faturar em cima da tragédia, pra depois construir uma carreira toda baseada na rasura do pop que, como ela mesmo diz, “é algo feito pras pessoas não terem muito o que pensar”. A influência de ícones pop é bem fácil de ser feita, ainda que o diretor do longa, Brady Corbet, negue veementemente. Em diversos pontos do filme a existência de Celeste é burlesca; seus problemas são todos ligados ao show business, em que sua imagem vende e que nela são aportadas todas as suas neuras e preocupações.

O início.

Não me escapou a ideia de uma cápsula do tempo enclausuradora conforme assistia ao filme. Toda a vida da personagem foi direcionada em função daquele gesto inicial, ainda genuíno, diante da tragédia, diante da sobrevida. Senti claustrofobia pela total entrega, ainda que houvesse posteriormente a conscientização sobre o sistema sujo da indústria, visto que sua vida era pautada pela nostalgia do sucesso e reciclagem do que deu certo. Uma mulher, agora uma mãe também, que estacionou no mesmo estilo musical, sem evolução lírica. Essa sensação de claustrofobia me tomava.

Por outro lado, também não consegui sustentar empatia por Celeste durante muito tempo. O filme deixa claro a consciência da cantora, do quanto ela não só faz parte do jogo como quer mesmo fazer e não se importa. O preço da fama, como o subtítulo anuncia, não lhe é alto, contanto que ela continue sendo adorada, idolatrada, tendo constantemente alimentado seu eu egótico – que parecer ser seu único eu.

A atuação de Natalie Portman de fato é espetacular, como esperado tratando-se dessa talentosíssima atriz. No entanto, é equivocado dizer que é sua “melhor atuação” ou coisa do tipo, em especial considerando o tempo de tela dividido com Raffey Casidy, que interpreta sua versão mais jovem no início da história. Senti falta de mais roteiro para Natalie, que explorasse com mais capilaridade seu potencial enquanto atriz. Temos, sim, um gostinho desse talento nas cenas em que ela vive Celeste – mas poderíamos ter um prato cheio, e não só uma degustação.

De modo geral, os elementos expostos no filme poderiam ter tido maior continuidade e exploração. A relação com a filha é tocada e deixada em aberto. A relação amorosa é mal explicada. Talvez tudo isso seja intencional, o que faria sentido tratando-se de uma pessoa como Celeste que só se importa consigo mesma. Mas, ainda que o seja, a própria construção de personagem principal fica rasa. E, mais uma vez, talvez tenha que ser assim mesmo, pela mensagem de superficialidade que sinto nortear o filme (o “retrato do século XXI”, como ele finaliza dizendo em tela). A trama poderia ser melhor costurada e ainda deixar aí uma crítica às futilidades. De qualquer forma, que bom que tal crítica existe e que este não é, como esperado, um filme romantizando o estrelismo, a fama e o dinheiro – e sim mostrando bastidores que ridicularizam, reduzem, fragilizam e coisificam o ser humano.

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