Lá em 1996, aos domingos, depois do “Fantástico”, comecei a ter contato com Carlos Augusto Vasconcellos Antibes, vulgo Caco Antibes (Miguel Falabella), que se descrevia como um príncipe dinamarquês, descendente da “Baronesa Waisse Füder”. Constantemente ele fazia referências à Dinamarca, pintando-a como um dos melhores lugares do planeta, compostos essencialmente por pessoas loiras de olhos claros e de acesso limitadíssimo. Embora isso tenha marcado meu imaginário e soubesse que, se tratando de um sitcom, essas informações estavam exageradas, há de se pontuar algumas questões que são relevantes para discutirmos Warrior – A Batalha de Todos os Dias.

De fato, o acesso ao país para imigrar é complicado. Em resumo, para você conseguir tirar sua cidadania, após cumprir TODOS os MUITOS requisitos, leva-se 10 anos para você ter o direito de prestar uma prova para ser um cidadão. Isso sem mencionar que a cada ano o país mexe na legislação adicionando mais empecilhos e prazos longos a serem cumpridos, resultando numa sociedade que se fecha ao imigrante. Outro ponto para ter em mente é o baixíssimo índice de violência no país. Copenhague – onde se passa a minissérie – é a cidade com o menor índice de violência do PLANETA e apresenta um IDH que a coloca entre as 3 melhores cidades para se viver no mundo.

Mesmo sendo uma nação com elevado padrão de vida e sem muitas pendengas internacionais, a Dinamarca envia tropas constantemente para áreas de conflito pelo mundo, como por exemplo o Afeganistão. Pegando esse gancho, Warrior explora um cenário bifacetado. De um lado temos um soldado voltando da guerra após perder um grande amigo, o que é bem crível, e do outro temos o submundo em Copenhague, que já não é tão crível assim. Confesso que não consumo muito as produções cinematográficas deles, mas o pouco contato me fez apreciar bastante essa escola. Contudo, quando temos obras que tentam apresentar pro mundo uma característica que foge muito da ideia concebida, ou até mesmo da realidade, que temos de certos locais fica difícil a imersão na obra. É o caso da violência causada pelas máfias e disputa de território pelos bairros de Copenhague em Warrior.

Como bem já disse, temos um soldado, CC (Dar Salim), voltando da guerra para enterrar um subordinado/amigo. Sentindo-se culpado, ele aceita/é manipulado a se infiltrar numa gangue de motociclistas, que na verdade é uma máfia que pratica roubos de carga e distribui drogas. Sua ligação com a polícia não ocorre em nível institucional, sendo ele mais um informante do que um infiltrado, o que já levanta questões éticas sobre a prática policial na cidade que já me causaram leve descrença.

Seguimos pelo clássico formato de gente infiltrada tentando pegar informação para desmantelar a máfia com os clichês que o gênero pede. CC é sempre direto e pouco discreto, fazendo perguntas o tempo todo sobre as operações ilegais, o chefe do grupo se apega rápido e não suspeita dele, a polícia sofre pra dar um flagrante mesmo recebendo informação privilegiada e as relações pessoais entre CC e a máfia e CC e a polícia lentamente ganham outros significados.

Apesar de ser tudo muito óbvio, há aqui uma jogada interessante envolvendo seu passado militar. Aquela “brotheragem” na guerra com seus companheiros é levemente retratada na sua relação com os membros da máfia, criando ali empatia por um meio semelhante, mas com agendas diferentes, causando angústia e conflito em nosso protagonista. A construção disso com os flashes da guerra são muito bem confeccionados e são o ponto alto da minissérie, mesmo que eles não cubram 20% do total dos 6 episódios. Christoffer Boe (diretor) ainda resvala em questões sobre transtorno de estresse pós-traumático, mas que fica sem um desenrolar apropriado com as circunstâncias que CC está inserido. Também não muito bem desenvolvido, a questão racial/migratória não foi satisfatória, aparecendo mais para reforçar alguns estereótipos, como o dos italianos e dos árabes, do que para se discutir uma questão social de uma Europa – especialmente uma Dinamarca – que está mudando e se fechando, eventualmente com discursos muito radicais.

Warrior é uma minissérie que cumpre seu papel de entreter, levanta algumas questões pertinentes, mesmo que não as discuta, e mostra que os laços que criamos uns com os outros vão além das instituições que servimos. Você só precisa esquecer que estamos em Copenhague.

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