Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando. Ele não sabe o que foi ontem, o que é hoje e o que será amanhã. Saltita de lá para cá, come, rumina. Para depois começar tudo de novo. Isso inveja o homem, pois o animal vive cada momento como se não existisse nada além dele. E o animal inveja o homem, pois esse pensa sobre o passado, analisa o presente e projeta o futuro. Com essa idéia, Nietzsche abre seu “Segunda Consideração Intempestiva”. O que difere o homem de qualquer animal não é, portanto, como costumam dizer equivocadamente, o fato de ser racional (mesmo porque conheço animais bem mais perspicazes do que muitos humanos do meu obrigatório convívio). O que diferencia o homem de qualquer outro animal é o fato de ele ser um ser histórico.

Décadas após a II Guerra Mundial, quando a Alemanha marcou presença em território búlgaro, um grupo de trabalhadores alemães inicia uma construção em uma região mais isolada do país. Os preconceitos de outrora se farão presentes, enquanto alguns deles se utilizam de suas relações de poder para marcar posição diante dos citadinos daquele lugarejo. Outros, porém, como é o caso do protagonista Meinhard (em atuação naturalíssima de Meinhard Neumann), se valem desta situação para buscar algo novo. Parece-nos o cenário ideal para um homem solitário com desejo não explícito de recomeço.

Entre uma terra e outra.

As barreiras culturais, em especial pela língua, que impedem a plena comunicação entre alemães e búlgaros vão, aos poucos, sendo vencidas pela vontade maior de relacionamento entre os habitantes e os visitantes. Meinhard vai passando por cima de conflitos criados pelos seus compatriotas, em alguns exemplos de demarcação de território (uma ilustração da bandeira fincada em terra estrangeira), criando relações duradouras com os novos conhecidos. Mas essas relações nos confundem constantemente, já que alguns o vêem como um alemão representante de uma sociedade evoluída e outros enxergam nele uma continuidade dos invasores de antigamente. A partir dessa dicotomia, vamos sendo levados em uma espiral de tensão que nos leva a crer que algo perturbador poderá acontecer a qualquer momento.

Valeska Grisebach se utiliza desses elementos para realizar um filme de naturalidade invejável, tanto nas atuações e na forma de filmar quanto no desenvolvimento dos conflitos. Não estamos de frente para um filme tradicional, com uma narrativa desenhada e um gráfico de clímax confeccionado. Muito pelo contrário, a tensão supracitada é tão somente um elemento deste conto que preza muito mais pela descrição das relações cotidianas do que pelo desenrolar de um enredo produzido. Soa como se fôssemos a sombra de Meinhard, testemunhando o passar de seus dias, enquanto ele próprio tenta se encontrar: não por ser um estranho em terra estranha, mas por não se sentir como parte de nenhum lugar. Aquele lugarejo isolado surge como possibilidade de um reencontro consigo mesmo.

Meinhard entre o conflito dos outros.

Lento, contemplativo e delicado, Western é um filme que lida sobre a natureza de cada um, com a mesma naturalidade dos nossos dias. Sem estardalhaço, sem cenas inventivas, o filme envolve não pela engenhosidade de sua história, mas pela identificação de um conflito comum a todo e qualquer espectador.

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