Em 2013, o britânico Steven Knight lançou o simplesmente sensacional “Locke” (filme também disponível na Netflix e cujo ovo já foi devida e merecidamente babado em um Garimpo aqui do site). Escrito e dirigido por Knight, “Locke” se resumia a um Tom Hardy em estado de graça dirigindo pelas estradas inglesas enquanto tentava lidar e resolver uma série de pepinos muito sérios que apareceram na sua vida. Toda a ação do filme se dar dentro de um carro com Hardy dialogando por telefone com outros personagens, muitas vezes as tomadas eram feitas de fora do carro, mostrando-o singrando pelas estradas , de modo a dar mais movimento imagético a toda a trama.

Wheelman, o mais novo filme original Netflix, pega emprestado este conceito e extrapola-o. À exceção de uma mísera cena na qual o protagonista troca de carro, não há sequer uma tomada que não tenha sido feita de dentro de um automóvel. Para se ter uma noção, só sabemos que o primeiro veículo usado é uma BMW preta com um porta-malas vermelho porque isso é dito lá dentro.

Valendo-se da competentíssima cinematografia de Juan Miguel Azpiroz, o diretor Jeremy Rush se pretende Steven Knight e, esteticamente, até consegue sê-lo brevemente. Mas esbarra na falta de conteúdo do roteiro de sua própria autoria, o que, felizmente, não o impede de entregar um thriller com toques de ação bem executado.

Ator conhecido por seus muitos papéis coadjuvantes como policial, oficial do exército e, principalmente, como o Ossos Cruzados da série do Capitão América, Frank Grillo é o wheelman (traduzido corretamente, ainda que sem inspiração, para “motorista” na legendagem). Em uma primeira cena sem cortes que nos mostra que ele muito provavelmente não se valeu de dublês na direção dos carros, descobrimos que o motorista (seu nome nunca é revelado) está pegando a tal BMW para ser o piloto de fuga de um assalto a banco.

Mais uma vez tirando uma lição de Locke, o motorista passa boa parte do seu tempo também no telefone, mas, desta vez, ao invés de estar tentando resolver abacaxis de certa forma mundanos,  o objetivo do wheelman, como aparentemente é obrigatório na filmografia americana, é sobreviver e proteger a sua família. E isto se dá mediante uma série de conversas telefônicas com várias pessoas que tentam, cada uma a sua forma, manipular o motorista enquanto ele tenta, por telefone, evitar que sua filha de 13 anos seja deflorada por um rapaz de 17 em casa.

Grillo, apesar de um tanto exagerado na agressividade com que fala com seus interlocutores que não sejam a sua filha assanhadinha, conduz bem o filme, em especial nas poucas cenas em que contracena com os ótimos e subestimados Garret Dillahunt e Shea Whigham, dois atores que, como Grillo, parecem estar relegados a ser eternos coadjuvantes a despeito de seu evidente talento.

Apesar de ter sido vendido como um filme de ação, Wheelman é na realidade um bom e tenso thriller com alguns elementos de filmes de ação. Não temos aqui várias perseguições de carro ou tiroteios como talvez seja o esperado, muito embora abusem de imagens do interior do carro e de tomadas pornográficas do sujeito trocando de marcha e manobrando. A ação é, na verdade, centrada nos diálogos e nas reações de Grillo àquela situação surreal que o vê, meio que do nada, lutando por sua vida e pela vida daqueles que ama.

Executado de forma competente e apresentando essa inovação (ainda que não tão nova assim) no modo de se filmar, Wheelman tem um potencial enorme no jeito visual em que se propõe a contar a sua história. O problema é que a história a ser contada já o foi muitas outras vezes, o que acaba por impedir que o filme realize todo o seu potencial e o relegue a um mero, ainda que impressionante e divertido, exercício estético e técnico.

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