Preciso deixar uma coisa bem clara aqui desde já. Eu pelo um saco fortíssimo de Iko Uwais desde aquele aquele que foi um dos primeiros artigos desse site (Garimpo: Operação Invasão), passando pela resenha de um filme do qual ele participou (“A Noite nos Persegue“) e de outro filme no qual ele nem teria qualquer possibilidade de ser escalado (o excelente “Apóstolo“). Nos filmes da franquia indonésia “Operação Invasão”, e em praticamente todo filme do qual ele participa, Iko Uwais é sempre a melhor coisa na tela. Não por seu alcance dramático e domínio shakespeariano da arte de atuar, mas porque ele é hoje em dia – e eu falo isso sem medo algum – o mais espetacular astro do cinema de artes marciais que há.

Dito isso, eu fiquei imediatamente com aquela coceirinha no cu a partir do momento que a Netflix anunciou Wu Assassins, coceirinha esta que tomou conta de todo o corpo quando também foi anunciado que a espetacular Katheryn Winnick (de “Vikings”) seria co-protagonista da série com ele.

Tendo visto toda a primeira temporada de Wu Assassins, posso agora dizer que estou com um sentimento meio misto. Ao mesmo tempo que Iko Uwais ainda é o animal de sempre na porrada e Katheryn Winnick continua sendo espetacular, a série tem muito pouco a mais para oferecer além do espetáculo visual que os dois trazem a qualquer produção da qual participam. Aqui temos uma história bem simples de bem contra mal, de um escolhido lutando contra um mal ancestral cujo objetivo é realmente só ser mal e é isso aí.

Para tanto, os roteiristas pegaram aquela lenga-lenga já muito usado dos elementos fundamentais (fogo, água, terra…) da mitologia chinesa para criar uma narrativa mística na qual Kai Jin (Iko Uwais) se torna o tal do Wu Assassin (Assassino de Wu) que vai livrar o mundo dos tais do Wu, pessoas que carregam essas forças fundamentais da natureza dentro de si. E é isso. Todo o resto é uma encheção de linguiça do caralho para completar a cota de 10 episódios.

Há uma tentativa de se discutir a dualidade do ser humano, em especial com o arco de redenção de um dos personagens principais, mas que fica sempre na superfície. E, sinceramente, é até bom que fique mesmo. O que a gente quer ver é gente entrando na porrada e aqui jaz o que pra mim é o principal problema de toda a série: falta cena de porradaria. Não me entendam mal. Tem bastante cena assim, mas a impressão que se tem após quase todo episódio é que a gente queria menos gente reclamando da vida e mais gente sendo arregaçada no pau. Inclusive, o próprio Iko Uwais é sub-utilizado boa parte do tempo, com um episódio inteiro, por exemplo, sem a participação dele.

Pra piorar, a série conta com uma trilha sonora confusa, que tenta se afastar do óbvio em uma obra com influência asiática ao colocar uns hip-hops que não têm nada a ver com os momentos vividos pelos personagens ou músicas que, quando tem algo a ver com a situação, são praticamente auto-explicativas. Em uma determinada cena, uma capanga das tríades da Chinatown de San Francisco usa um sapato com lâminas no salto e a música que toca é obviamente “These Boots Are Made For Walkin'” numa versão em francês. É nesse nível.

O mesmo pode ser dito dos efeitos visuais e sonoros criados para mostrar os poderes místicos. Parecem algo saído diretamente daquela série merda do Hércules dos anos 90 com o Kevin Sorbo. Faltou um investimento maior nesse quesito. Ou então poderiam simplesmente ter esquecido essa desgraça de coisas místicas e só botado vagabundo pra sair na mão a série toda, daí não teriam tido que gastar com efeito de foguinho e aguinha.

Surpreendentemente, contudo, à exceção da mentora de Kai Jin depois que ele descobre ser o escolhido que faz um trabalho realmente ruim, temos um elenco que consegue segurar bem toda a série, mesmo com diálogos muitas vezes toscos e uma direção bem frouxa nas cenas dramáticas, com destaque para Byron Mann como Uncle Six, o pai de Kai Jin e chefão das tríades. Outro ponto positivo também é a participação, ainda que curta, do mito Mark Dacascos, astro dos filmes B de porrada da década de 90 e vilão do último John Wick, em cuja resenha dediquei um parágrafo a este agora senhor.

Felizmente, quando o bagulho fica doido e a porrada estanca, a série diz a que veio, com coreografias e cenas bem executadas, embora muitas vezes ainda se valendo de uma técnica de edição com mil cortes, que faz a ação perder um pouco do realismo que tanto notabilizou a franquia “Operação Invasão”. As cenas em que Uwais atua são as mais violentas, realistas e espetaculares, mas o resto do elenco também vai muito bem aqui, com destaque para a própria Katheryn Winnick, que, além de deslumbrante e boa atriz (e de ainda ter dirigido um dos episódios da série), conseguiu sua faixa preta no tae kwon do aos 13 anos de idade e é até hoje uma referência dessa arte marcial no Canadá.

No cômputo geral, Wu Assassins é uma boa série de artes marciais quando se concentra em ser uma série de artes marciais. Lutas bem executadas e coreografadas, boas situações para a violência acontecer e Iko Uwais garantem isso. Contudo, ao se ver obrigada a enrolar o espectador por 10 episódios em que não há tanta coisa assim a ser falada, ela falha miseravelmente.

Logo, se você quer passar 10 episódios de 45 minutos em média de forma descompromissada, vendo gente bonita (à exceção do Uwais) praticando atos violentos enquanto uma historinha qualquer nota segue no fundo, então Wu Assassins é pra você, assim como foi pra mim.

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