Yasuke conta a história do próprio, uma figura lendária no Japão do período Sengoku (meados do séc. XV até o início do séc. XVII) envolta em muito mistério e conflitos. Assim como o britânico William Adams e o francês Jules Brunet – que foi inspiração para criação de Nathan Algren (Tom Cruise) de “O Último Samurai” -, o africano (supostamente moçambicano) Yasuke, dublado por LaKeith Stanfield, recebeu uma das maiores honrarias da época, o título de Samurai dado por Oda Nobunaga, um dos mais icônicos daimyos de sua época. Nobunaga ficou conhecido por quase unificar todo o Japão, que ainda vivia um sistema de servidão com diversos senhores da terra (e guerra) lutando entre si para ver quem tinha o maior pau e mandar na maior parte do país. Eis que nosso samurai negro faz sua fama, servindo seu senhor – e posteriormente seu filho – como um grande guerreiro e estrategista. E é contando parte dessa história com certo apreço ao fatos e valendo-se do mistério que cerca a vida de Yasuke após seu período com a família Nobunaga que encontramos o enredo dos 6 episódios entregues pela Netflix.

Gostaria já de tirar do caminho a questão técnica um tanto polêmica do anime. Como você pode ver pela classificação etária, essa obra é de uma violência gráfica gritante, com gente sendo fatiada e explodida de tudo que é forma bem em frente dos nossos olhos. Não que isso seja um ponto ruim ou que o anime se faça em cima exclusivamente dessa característica, mas a pobreza de detalhes fez parecer que essa violência existia apenas para corroborar a crueldade das situações. Praticamente todo mundo quando cortado se transformava num pudim de beterraba gosmento, sem qualquer identidade artística, o que não significa que a série foi mal animada, pelo contrário, a animação é bem executada e empolgante. Esse desleixo técnico na concepção artística, trazendo algo genérico, mas bem executado, é a cara do estúdio Mappa, que é a responsável pela 4a temporada de “Attack on Titan”, alvo constante de reclamações do mesmo tipo. Dói no peito ver um anime que tem um bom material fonte ser tratado com certo desdém se comparado a outras animações deles, como o premiadíssimo “Jujutsu Kaisen”. E eu mencionei que além de samurais e de cidadãos comuns, nós temos mutantes que mudam de forma, possuem telecinese, telepatia, invocam espíritos, atiram raios pelas mãos e lutam em planos astrais? Ah! Também temos mechas gigantes (?!) inventados pelos mongóis com inteligência artificial avançadíssima.

Além dessa despirocada de elementos, a escrita dos personagens é problemática. São apenas 6 episódios com um número grandes deles aparecendo, fazendo uma figuração, soltando frases de efeito e morrendo/sumindo sem qualquer desenvolvimento, o que me levou a me importar em absolutamente nada com diversos desses óbitos, alguns até heroicos ou inesperados. Com esse número limitado de episódios, o ritmo que deveria ser intenso do início ao fim, dado o escopo almejado pela trama, é errático. Quando subiram os créditos do 4o episódio eu estava certo que esse lançamento era apena a 1a parte de algo muito maior e que nos 2 episódios restantes um cenário seria armado para ter desfecho com a outra metade a ser lançada futuramente. Tudo que estava aberto é fechado de forma rápida, mal feita e abandonando talvez o que tenha sido o melhor em Yasuke, a sua narrativa em duas linhas temporais. Vou nem adentrar muito na trilha sonora, que seria excelente caso eu estivesse assistindo um anime cyberpunk, sendo muito eletrônica e recheada de sintetizadores. É triste ver a competência numa trilha muito boa e uma animação excelente encaixadas de forma desconexa com a proposta de história e design de personagens.

Porém, nem tudo está perdido. Há aqui um discurso interessante e atual. Oda Nobunaga era progressista. Ele abraçava o moderno, o novo, com uma visão para o futuro e para o todo, mantendo boas relações com o ocidente e aceitando em suas fileiras estrangeiros, vide nosso amigo Yasuke. E como todo bom estadista de vanguarda aberto ao mundo, ele incomodava outros senhores da guerra – e membros de sua própria fileira de generais – que mantinham uma retórica calcada em valores tradicionais, com aversão ao estrangeiro, imbuídos em inveja, ódio e  intolerância. Gente merda sempre existiu, mas estamos dando vozes a elas em movimentos nacionalistas com líderes políticos de uma estirpe que já sabemos não durarão muito tempo no poder dado a sua enorme incapacidade de gerência, levando ao caos e a tragédia (ou mais de 400 mil mortos). Com a queda de Nobunaga e a ascensão de um daimyo radical que busca apenas poder e que é sustentada por esses apoiadores da família tradicional, temos a liberdade criativa onde Yasuke se desenvolve no discurso que os bons não devem se manter omissos e que devem lutar contra o radicalismo.

Dito isso, mesmo com uma série de problemas técnicos e com elementos fantasiosos demais para uma história real e inspiradora, Yasuke é uma pedida interessante para aqueles ávidos por animes, mas com baixa disposição para séries longas.

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