Ilustres leitores do MetaFictions, a dinâmica de escolhas de filmes para a realização das críticas das estreias da semana para o site funciona de forma assimétrica. Temos dois escritores que escolhem sempre o que querem antes de todos. Após essa peneira, outros 3 disputam ainda bons filmes. Ao final, restam 3 escritores, sendo que um possui condição especial, logo não costuma fazer muitas estreias. Sobram 2, eu e Gustavo, o Viril. Pegamos a raspa.

Confesso que eu ainda tenho muito mais sorte que o Gustavo, que geralmente acaba fazendo filmes nacionais. Excepcionalmente, nessa “raspa”, pego filmes que de fato gostaria de ver. É o caso de Z: A Cidade Perdida. Fui conquistado pelo trailer que dava a entender que seria um Indiana Jones que se leva a sério e que se passaria na América do Sul. Como iriam nos retratar?

O longa conta a verídica história de Percy Fawcett (Charlie Hunnam), famoso explorador britânico do início do século XX. Bem… não tão famoso assim que começa o filme. Fawcett, que atingiu a patente de coronel em vida, inicia sua jornada como major, buscando avidamente por promoção e melhor posto de trabalho. Isso tudo por causa da “vergonha” imposta ao seu nome por seu pai, o que não é aprofundado, felizmente.

Sim. Os britânicos são altos.

Por ter experiência com topografia, Fawcett recebe a tarefa que poderia abrir as portas para o prestígio e ajudá-lo a galgar os degraus da carreira militar: mapear uma área sensível na América do Sul no início dos anos de 1900. Estamos falando da disputada fronteira entre Brasil e Bolívia na época do auge da exploração do látex (para fazer borracha). Disputa essa que gera uma instabilidade temida pelo Reino Unido, já que os preços de importação poderiam aumentar consideravelmente caso estourasse uma guerra entre as duas nações. Relutante com a tarefa, mas interessado na possível recompensa, ele aceita.

Por ser formado em geografia e ensinar sobre esse conflito, admito que isso me deixou bastante intrigado. Será que a região seria bem retratada? Sim, meus ilustres leitores. A área onde se desenvolve o filme, na porção leste da Bolívia, atual estado do Acre, está bem fiel ao que era na época. Grandes barões da borracha comandando a região, esbanjando riqueza e , acima de tudo, poder.

Fawcett e Henry Costin (Robert Pattinson), partem na perigosa missão de mapeamento Amazônia adentro e para achar a nascente do Rio Verde, ponto central para resolução pacífica entre as duas nações.

Em busca da arca perdida.

Durante a tarefa temos a ruptura do filme e que transformará profundamente Fawcett, a descoberta de evidências arqueológicas de uma civilização ainda não encontrada, extremamente avançada e tão antiga quanto as civilizações europeias e asiáticas. Seu interesse no que o sucesso da missão pode proporcionar é subitamente substituído pela obsessão em comprovar a existência de tal civilização.

Z: A Cidade Perdida, levanta a discussão sobre o eurocentrismo e uma visão de mundo muito distorcida e enganosa dos povos nativos do novo continente. Vemos tudo isso sob o prisma de uma pessoa obcecada e apaixonada por uma realidade que não é a dele. Fawcett é britânico e possui família. Todo esses conflitos, obsessões e paixões se desenrolam por décadas e ao longo de eventos marcantes, como o fim do ciclo do látex e a Grande Guerra.

Não aceite cópias. Cinema é no MetaFictions.

Gostaria de deixar registrado aqui a minha admiração pela a belíssima atuação de Robert Pattinson, o vampiro purpurina da nova geração. Talvez a melhor atuação coadjuvante que vi no ano. Mas igualmente proporcional foi a minha decepção com a atuação de Tom Holland, nosso novo Homem-Aranha. Seus breves momentos em tela foram completamente esquecíveis.

Embora o filme tenha certa precisão histórica e geográfica, ele não escapa ileso. Alguns estereótipos brasileiros são reforçados, assim como alguns mitos que possuem base em poucos exemplos conhecidos e sem contar os erros de localização de algumas expedições.

Tudo isso não tira o brilho do filme, que consegue desenvolver uma história cativante sobre a obsessão de um homem em detrimento de suas obrigações e obstáculos de inúmeros graus.

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