Lucrecia Martel demorou quase 9 anos para voltar à tela assombrada após o seu apoteótico “Mulher Sem Cabeça”. Pilar da renovação do cinema latino-americano e um dos mais proeminentes rostos do novo cinema argentino, a cineasta utilizou esse tempo perdido para lapidar um dos mais fascinantes retratos da gênese do continente Americano como conhecemos. Zama, atira seu protagonista e o próprio espectador para um espiral de loucura onde o etnocentrismo europeu é decomposto até virar pó. Ambicioso, gélido, fustigante, a película é uma investigação sobre a fundição sangrenta que deu origem às nossas fronteiras e muralhas de opressão.

Daniel Giménez Cacho encarna com uma maestria sutil, por vezes envergonhada, o protagonista Diego de Zama, fiscal da coroa espanhola, desgostoso, cuja monotonia na costa argentina se resume a corrupção, luxúria e intrigas palacianas com odor de melancolia mofada. Ele esconde por trás da casaca avermelhada a febre da selva, o desejo de retornar a pátria mãe com os bolsos repletos de prata, ouro e pouco suor. Pairando a lente nessa caricatura fantasmagórica do conquistador, Lucrecia vai despindo a soberba europeia até reduzi-la a uma mera marca da fragilidade das relações de alteridade. Diego de Zama é um mero joguete nas mãos do delírio da fortuna fácil, a miragem das caravelas transbordando metais, ele traveste seus próprios valores enquanto justifica sua odisseia pelo bem de uma nação e uma família que já não lhe significam nada. O filme é cirúrgico ao esmiuçar o homem branco fraco, impotente diante dos trópicos e um universo que se moldou a partir de suas fissuras e hemorragias. Misturado às feridas da escravidão, esse vigia fraco dá luz a um continente inteiro sem face.

Se toda a narrativa já nos arrasta até o mal-estar implícito das terras do Panamá até o Estreito de Magalhães, a cinematografia de Lucrecia (contando com Rui Poças como seu diretor de fotografia) acentua essa agonia se fundindo a arte de se entregar, de corpo e alma, ao extracampo. Assim como no roteiro, os diamantes de Zama se escondem no que está oculto, e até certo ponto inalcançável. O cinema é a arte do que não está no quadro, a diretora leva isso ao extremo, fazendo um filme sobre o que não é dito, sobre o que não se mostra, sobre as sombras dos personagens, fagulhas obtusas, perdidas num emaranhado de silêncio e olhares que apenas podemos imaginar.

A fotografia é sublime, assim como a reconstrução de época. Tudo se funde e se mistura para compor o berço do morto vivo que conhecemos como América do Sul. O único pecado está justamente no ritmo. Para entregar o espiral de loucura completo, a obra abdica por muitas vezes da atenção do espectador.

Zama é no fim peça chave para a identidade tanto de Lucrecia Martel como diretora, quanto para a América latina, os dois unidos pelo desejo de imaginar o que ainda se esconde nas entranhas podres da opressão, o que não se mostra e não se fala, todavia ainda nos persegue em nossa contínua solidão com a qual espreitamos noites amargas, dias que não acabam, porque ainda esperamos algo que está enterrado no mar.

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