O futebol é maravilhoso. Um só sentimento em uníssono, uma bandeira, um cântico elevando milhares a um só tempo. Por um clube ou por uma nação, todos estão juntos pela mesma coisa. O choro de alegria ou de tristeza; a frustração ou a euforia. Independente do momento, o sentimento de pertencimento através do futebol permanece. Esse esporte guia escolhas, orienta promessas, define nomes de indivíduos. Muitas vezes hereditário. Quase sempre amor incondicional. Mas o futebol, como tudo na vida, é composto por seres humanos e aí reside o elemento principal da decadência. Onde quer que esteja o ser humano, ali estará o princípio do caos. Ultras, o novo filme italiano da Netflix, fala exatamente sobre o caráter patético do futebol.

Sandro é um homem vivido. Por volta de seus 50 anos, ele é um dos lendários “banidos” da torcida do Napoli. Não banido pelo time, mas pela polícia. Por ter feito parte da torcida organizada “Apache” e ter se envolvido em brigas que geraram vítimas, ele e seu grupo de velhos amigos foram banidos dos estádios, sendo obrigatória a sua presença na delegacia durante as partidas do time. Tentando revisitar aqueles lugares sombrios de sua história, Sandro se aproxima de Angelo, um garoto cujo irmão era seu parceiro de outrora e não sobrevivera a uma das enormes brigas de torcida. Dessa forma, o velho vê no rapaz novo uma chance de mudar: Sandro tenta mudar seu passado e tenta transformar o futuro de Angelo. Em meio a essa amizade, um grupo mais novo de torcedores “Apache” tentam radicalizar ainda mais o processo de ataque das torcidas organizadas. O que importa aqui é a delinquência. O time, o futebol, é mero pano de fundo para esses tipos.

A ignorância.

O diretor é extremamente cuidadoso com a narrativa do filme. Ele jamais deixa misturar a fábula que o futebol personifica com esse lado puramente caótico inerente ao esporte e à esta paixão. Não vemos, durante a obra, uma cena sequer de um jogo. Nem no estádio, nem na TV. O futebol aqui, em Ultras, não é o protagonista. Assim como ele não o é para as torcidas organizadas mundo afora. O futebol é mero pretexto para se colocar para fora o que há de mais detestável dentro de si. Desenvolver um ódio a uma torcida rival, fazer dos jogos apenas um encontro pré-estabelecido para o caos e utilizar os elementos identitários como símbolos de gangue é o que norteia a ação desses personagens que, apesar do exposto no início do filme acerca do caráter meramente ficcional da obra, são um retrato fiel da realidade vivida em absolutamente todos os países nos quais o esporte tem grande fanatismo.

As cenas que se seguem são o desenrolar da relação de amizade entre Sandro e Angelo, que vai se perdendo devido aos conflitos de geração dentro de uma mesma torcida. Se há briga dentro da própria torcida organizada, imagina o palco de guerra que não se torna quando o inimigo é comum a todos. As canções utilizadas pelos ultras são as mesmas utilizadas na Argentina, no Brasil, na Inglaterra. Só muda a letra. O comportamento é o mesmo desses países. O resultado não poderia ser diferente. O futebol aqui passa longe. O que fica é o apetite intrínseco ao ser humano pela destruição. E assim vemos a vida de cada um ruir baseado em um suposto amor incondicional por um time. A bola rola no gramado, mas o gol não mais interessa; os hinos são meras canções de horror; o amor se transformara em ódio. O futebol desaparece.

Como pessoas normais.

O filme, porém, perde uma grande oportunidade de denunciar também o atual e maior problema que a Itália enfrenta com suas torcidas: um racismo imperativo e ignorante. A temática passa longe em Ultras, ficando só uma parte da ignorância que rege e é regida pelos torcedores. Mas, apesar disso tudo, o futebol continua sendo maravilhoso. Já contemplei coisas belas em anos de fanatismo. Sou Romanista. A tela do meu celular é o escudo do A. S. Roma com Francesco Totti (er Capitano, aeternum!) e, quando da sua aposentadoria, pude ver todas as gerações viventes chorando (e eu também) a despedida dos campos por parte de nosso maior ídolo. Sim, o futebol sempre será maravilhoso. O ser humano que não. E, dentro de sua habilidade mais qualificada, ele consegue destruir tudo aquilo de que se aproxima.

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