Nunca um filme me proporcionou tanto estranhamento, prazer e horror quanto “Eraserhead”. O filme de estreia de David Lynch é uma explosão crua e fulminante em suas pálpebras que saltam e oscilam entre o piscar e o não piscar. Lynch é o surrealismo, as formas que se contorcem, a realidade que se distorce e naquele filme do empoeirado ano de 1977 foi capaz de me mostrar que o Cinema, a Arte é muito mais sobre sensação do que compreensão.

O gênio, certamente ganhará um perfil como Tarkovsky já ganhou aqui.

Mas, enquanto tal artigo não chega, resta-me rabiscar sobre Lynch: A Vida de um Artista. Documentário que corri para resenhar e capturar na acirrada disputa de estreias entre os colaboradores do Metafictions, quase que a película escapou de minhas mãos. Encontro-me em uma aterradora semana de avaliações e o colega Marco Medeiros vive na espreita, salivante. Todavia não seria capaz de não dar meus pitacos sobre qualquer coisa que envolva quem considero o melhor cineasta vivo.

No céu tudo é perfeito.

O documentário é muito mais um retrato íntimo, profundo, uma visão de dentro de um dos seres mais criativos já vistos, a impressão é de a cada segundo entrar mais e mais naqueles cabeça de cabelos revoltos e platinados. Entender o artista é tão importante quanto entender sua obra, nesse sentido Lynch: A Vida de um Artista  se prova um primor. Com depoimentos do diretor, chega-se cada vez mais perto da fonte de surrealismo insano do diretor, com suas memórias de mulheres peladas de pele pálida, é possível respirar o fumegante oxigênio criativo de Lynch.

“O surrealismo é destrutivo, porém destrói apenas aquilo que limita nossa visão.” Salvador Dalí

Na mesma medida que para os fãs e amantes do cinema a película é obrigatória por pintar tão bem o quadro do autor de tantas obras primas, ela também é fatigante e exaustiva para aqueles que ou desprezam o discípulo da escola de Dalí ou não conhecem sua arte. Assim como os filmes do diretor, o documentário exige paciência e uma perspectiva mais contemplativa.

David me ensinou a importância da meditação, do café e acima de tudo, do não ser compreendido, instigar, torturar, sem revelar. Se não se prova tão explosivo quanto “Eraserhead”, prazerosamente desagradável como “Veludo Azul” ou surtado tal qual “Estrada Perdida”, David Lynch: A Vida de um Artista é um passeio íntimo e profundo que faz justiça ao peso de tratar de um dos maiores artistas que já pisaram sobre a Terra.

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