Turista, prostituta e travesti. Essa é a resposta que o sujeito recebe quando pergunta a um carioca morador de outra localidade sobre o que tem no mundialmente famoso bairro de Copacabana. Muito embora os travestis não sejam mais tão comuns quanto nos dias de glória da boate Help (hoje substituída pelo esqueleto de um museu que provavelmente nunca será inaugurado), esta resposta estaria correta em parte, pois o que mais tem em Copacabana, na verdade, é velho (e turista velho, prostituta velha e travesti velho).

Foi totalmente sem me atentar a este fato que fui ver este Despedida em Grande Estilo em Copacabana, em um dos últimos grandes cinemas de rua do Rio de Janeiro, o Roxy. Foi só ao entrar na fila para comprar o ingresso no caixa, pois a maquininha que vende ingresso estava quebrada, que me dei conta da auspiciosa coincidência.

Explico:

Despedida em Grande Estilo é um filme sobre 3 amigos de longa data, Joe (Michael Caine), Willie (Morgan Freeman) e Al (Alan Arkin), todos em seus setenta e poucos anos  (muito embora os seus intérpretes todos já tenham passado dos 80), que resolvem roubar um banco depois de tomarem uma volta em suas aposentadorias, mais ou menos parecido com o momento histórico que passamos hoje.

Eye of the Tiger

Voltando à fila do ingresso, atrás de mim estava Dona Therezinha (de Jesus), moradora de Copacabana, segundo ela, “há 60 anos e cidadã do mundo há 85”. Dona Therezinha vai ao Roxy todas as quintas para ver qualquer coisa que tenha estreado. Antigamente, quando as estreias eram às sextas, coisa de uns 5 anos atrás, ela ia toda sexta. Ela me disse que adorou quando as estreias passaram para a quinta feira “porque aí ficou mais barato, né, meu filho.” Justo.

Foi aí que eu me dei conta que estava indo ver um filme sobre 3 velhos que resolvem do nada assaltar um banco, em um bairro que só tem velho, às 16:10 de plena quinta feira útil. Por evidente, eu, que tenho 34 anos, era DE LONGE a pessoa mais jovem na sessão e Dona Therezinha (que insistiu que eu a chamasse somente de Tê), talvez por isso, me perguntou se eu não queria sentar ao seu lado.

Perseguições em alta velocidade

E, puta que o pariu, foi o convite mais delicioso que me fizeram nos últimos tempos. Tê, agora minha amiga e confidente, ria de absolutamente tudo que acontecia na tela, sempre de forma contagiante e acompanhada de praticamente o cinema todo. Em uma certa cena, logo no começo do filme, o personagem de Michael Caine, Joe, vai ao banco e o moço da recepção pede que ele aguarde sentado ser chamado. Acontece que a cadeira na qual ele se sentou era dessas baixinhas, modernosas e ele, sendo arcaico e alto, tem uma dificuldade tremenda em levantar. Isto já conquistou de imediato toda a platéia, eu inclusive, dando a tônica do quão saboroso viria a ser aquele filme.

Zach Braff, o diretor desse longa, é praticamente o inventor da modalidade g0y de relacionamento que se chama bromance e que é tão cara aos meus sócios Ryan e Renê. Foi ele, na pele de JD, que, no seriado Scrubs, engatou o primeiro bromance da teledramaturgia mundial com seu amigo Turk (Donald Faison), mas, ao mesmo tempo, conseguiu criar e manter uma carreira de diretor que já rendeu alguns bons frutos (Hora de Voltar em especial) e agora vem a se consolidar como um bom diretor de comédias.

Exame proctológico Brooklyn style.

Sua direção certeira dá total liberdade para o trio de atores veteranos brilhar, em performances divertidíssimas e que se valem daquele velho clichê que a 3ª idade é a melhor idade. Alan Arkin em especial está ótimo como o coroa que já chegou há muito tempo na fase do “foda-se” e do “me processa” tamanha é quantidade de baldes que ele caga para o mundo. É algo que eu invejo e almejo alcançar,  de preferência ainda antes dos meus 40 anos.

Cabe também falar sobre a hilária participação de Christopher Lloyd (o Doc Brown de De Volta para o Futuro) como o líder já meio demente da associação beneficente da qual os protagonistas fazem parte, fazendo piada com uma degeneração mental horrível mas que, caralho, é realmente engraçada em determinadas situações.

“Quem gosta de maconha?”

O roteiro, amarradinho e econômico na medida certa, é dolorosamente atual para os brasileiros, uma vez que a única razão que faz com que os 3 resolvam roubar um banco é uma questão previdenciária, já que as pensões que os três recebem do fundo da empresa onde trabalhavam foi extinta e seus recursos estão sendo usados para pagar dívidas bancárias e afins. Lembra alguma coisa?

Tê percebeu a ironia e, ao sair do cinema, me confidenciou que “esses corruptos safados que tão aí não me pagam a merda da minha aposentadoria do estado desde dezembro.” Pelo menos ela falou isso com um sorriso no rosto e logo depois ela pediu licença dizendo que precisava “ir ao banheiro porque ri tanto que me deu vontade de fazer xixi, eu acho”.

Missão cumprida, Zach Braff.

 

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