“There’s nothing but horror and inconvenience on the way. Look away, look away!”

É a abertura. Em alguns episódios, a música familiariza na cabeça. E a única coisa que você não cogita fazer, ainda que para uma parada rápida ao banheiro, é parar de assistir. Apesar dos tradicionais e pontuais conselhos do narrador, uma marca da franquia.  Desventuras em série: a prova de que infortunas narrativas podem ser deliciosas.

Para aqueles que, como eu, tiveram iniciação literária à base de Daniel Handler (que se apresenta sob o pseudônimo de Lemony Snicket), a série é contemplativa, nostálgica e extremamente fiel aos livros. Particularmente, não acredito que o cinema tenha obrigações com a literatura, posto que são duas linguagens diferentemente belas. Porém, quando ambos encontram simetria – tal como Desventuras em séries mostra encontrar – a experiência torna-se algo fantasticamente intimista e aproxima-se do indescritível. Até detalhes como anotações mórbidas para a misteriosa Beatrice são homeopaticamente espalhadas conforme o desenrolar dos episódios; as tradicionais metáforas do narrador e explicações de palavras também. É incrível assistir uma produção em que o texto, lido há mais de 10 anos, soa gostosamente familiar e que o diretor parece ter visitado seu imaginário e posto a história em cores dançando diante de você.

Neil Patrick Harris está extraordinário como Conde Olaf, personagem que motoriza as desgraças da vida dos orfãos Baudelaire. Apesar de existir um ímpeto que leva qualquer ser vivo a simpatizar com o ator, seu papel é asquerosamente eficaz e nos faz criar antipatia por um personagem com características burlescas, abjetas e perversas. A minha favorita é a enfatizada ignorância linguística do vilão, que comete gafes ortográficas e semânticas.  As crianças são adoráveis e encaixam-se com perfeição no papel – destaque especial para Sunny, que sempre foi minha personagem favorita, por se tratar de uma adorável bebê roedora de pedras e demais estruturas inesperadas. Além de, claro, falar uma língua que inicialmente é subestimada por todos mas é traduzida, brilhantemente, com palavras em muito rebuscadas. É um detalhe, dentre muitos, vindo do livro.

Confesso que temia que a característica fantasia que cerca a história dos Baudelaire, responsável por cativar durante minha infância, fosse parecer infantil aos meus olhos mais velhos. No entanto, mais uma vez, Desventuras em série enlaça seu público: carrega consigo um apetitoso sarcasmo, muito mais visível agora aos que cresceram, e seu esperado quê tragicômico. Nota-se a total falta de tato da parte dos personagens que não integram o núcleo vigarista da série; e isso é o que dá o toque ácido e pitoresco essencial para assisti-la sem a impressão de que é para crianças apenas. É como se a história se moldasse melhor dentro das viscosidades do tempo do leitor. Uma série digna de um constante meio sorriso, meio pateta e nostálgico, durante toda sua temporada.

Sugestões para você: