Claustrofóbico. Sensorial. Nostálgico. Visceral. Xavier Dolan nos expõe mais uma vez a uma experiência autobiográfica que, ainda assim, abarca o telespectador intimamente em suas cenas peculiares e cruas. O filme “É apenas o fim do mundo” cresce em um único ambiente, esponjoso, que absorve toda sua profundidade e gradualmente leva a narrativa ao abismo de instabilidade familiar do personagem principal, Louis.
A entrada no transe que o roteiro e direção da película causam é arrasadora. Uma vez encaixado no ritmo do filme, o telespectador sente a aflição, a vergonha, o medo e a tristeza que hora sim e hora não aparecem dentre o jardim e a casa da família. Louis, dramaturgo que não vê seus irmãos, mãe e cunhada há 12 anos, deve retornar a casa e dar a notícia de que morrerá.

Mas será isso possível em um ambiente onde o próprio viver é a todo tempo cerceado e transformado em caos? A culpa que Louis carrega por ter deixado sua família contrasta com a constante legitimação de que a toxicidade daqueles que carregam o mesmo sangue era insustentável. Foi libertação, não abandono. A leveza, efêmera, o rancor e pesar homeopáticos em cada fala, mágoas irreversíveis, distúrbios incontroláveis. O curioso desenvolver de uma trama em que o personagem principal pouquíssimo tem voz e, apesar disto, transmite com clareza o que sente.

“Temos medo do tempo… Medo do tempo que você nos dá”, a família diz. É constante a relutância em anunciar a despedida, já sabido o repudio pela ida de 12 anos, imagine rumo ao eterno. Dentre a catártica desenvoltura dos diálogos, densos, e o enquadramento fechado rosto a rosto, destacando olhares falantes, Dolan apresenta um filme magistral. O fantasma do tempo e sua liquidez e traumas pontuais e agudos sussurram vindos da tela. O que pode dar errado, afinal, em um almoço em família?

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