Albert Camus, escritor e filósofo argelino, radicado na França, propôs à ideia do absurdismo. Segundo ele, em algum momento depararíamo-nos com o absurdo, falta de sentido no mundo. Encontraríamos três possibilidades para aceitar a ausência de ordem em nossa existência: a primeira seria continuar vivendo nossas rotinas, ignorando o absurdo e procurando sentido em mitos e energias. A segunda… o famigerado suicídio. Ou, por fim, aceitar o absurdo, abraçá-lo a ponto de tornar sua própria vida um absurdo compatível com o do universo e assim encontrar certa paz.

Em “Elle”, filme vencedor do globo de ouro para melhor filme estrangeiro e forte candidato ao Oscar de mesma categoria, o mestre Paul Verhoeven mistura o absurdismo camusiano, com um behaviorismo pulsante para criar um dos filmes do ano. A película abre com uma cena absolutamente absurdista, um homem vestido de preto com equipamentos de esqui, a fim de encobrir sua identidade, invade a casa de uma mulher de meia idade para estuprá-la. A cena é crua, nervosa e angustiante. Mas o que se segue é igualmente insano, após a saída de seu agressor, a vítima se recompõe e não procura a polícia. Não poderia haver apresentação melhor para a protagonista Michele Leblanc (Isabelle Huppert), uma mulher de meia idade que controla todos os núcleos de sua vida com mão de ferro.

Para começar, trabalha num meio com poucas mulheres e, infelizmente, absolutamente machista: a indústria dos games. Ela é confrontada o tempo todo por seus subordinados, causando repulsa em alguns e paixão nos outros. No seu núcleo familiar, tem uma mãe que se entrega a prazeres mundanos e o fantasma de seu pai, um assassino serial que utilizava a própria filha como isca para suas vítimas. Essa assombração talvez seja a mais importante faceta de Michelle. Desde cedo ela viu o que homens poderiam fazer com ela, caso se mantivesse submissa. Tal passado cruel criou uma mulher forte que não se entrega a nenhum homem e muitas vezes os controla.

A partir do estupro sofrido no começo, Michele se vê no seu maior desafio absurdista, confrontar um animal sexual que brinca com ela a todo tempo. A trama transcorre por viradas narrativas inacreditáveis, mas Michelle nunca perde a pose. Seu segredo? Ela não só abraça o absurdo, como faz amor com ele, fazendo dessa total ausência de sentido surgir uma ordem e justiça que apenas ela e o universo entendem .

Nada disso seria possível se não fosse por Isabelle Huppert, que dá alma à protagonista de Verhoeven, fazendo impossível não acreditar em sua força mesmo em cenas onde é violentada. Ela carrega a obra nas costas. Por isso vem sendo premiada por sua atuação, arrematou o Globo de Ouro para melhor atriz dramática e está indicada ao Oscar. O elenco restante acompanha em bom nível, destaque para Jonas Bloquet, que encarna o filho pateta de Michelle, e para Cristian Berkel, marido da melhor amiga de Michelle, que se vê completamente preso e submisso na espiral de absurdo e feminismo, beirando ao femismo da protagonista.

Apesar de ter uma narrativa inspirada, uma das melhores e mais fortes personagens do cinema nos últimos tempos, “Elle” às vezes se prolonga demais, com cenas que apenas servem para chocar ainda mais o espectador ao invés de acrescentar à narrativa.

Numa produção francesa, Verhoeven apenas confirma seu inestimável talento para chocar audiência e crítica. Unindo filosofias atuais e técnica impecável, o diretor e Isabelle Huppert mostram o que é a tão procurada protagonista feminina forte.

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