Parece-me deveras plausível que toda obra passe uma mensagem, um discurso próprio que atinge alguns de maneira positiva e outros de forma oposta. Ao me deparar com o nome Em Defesa de Cristo, perguntei-me se efetivamente era um filme gospel. Ao ver que era assinado por Jon Gunn, tive certeza, já que a maioria de seus títulos são desse gênero. No entanto, fiquei curioso para saber se esta produção enveredava exclusivamente pela mensagem cristã ou se apenas contava com um pano de fundo religioso (como, na verdade, muitas fazem). De todo modo, consideraria louvável um modelo ou outro.

Antes que você pense que estará de frente para quase 2h de pregação religiosa, eu te digo que não. A estrutura do filme é extremamente interessante (não que 2h de pregação não sejam, mas sei que não é isso que se busca quando vai-se ao cinema), pois conta uma história universal: a busca de um homem por argumentos que sustentem a sua convicção, enquanto seu relacionamento conjugal se deteriora pelo fato de sua mulher não mais pensar como ele.

Quantos já não passaram ou passam por isso diariamente? Por isso, reitero: o que nos liga às produções que mais valorizamos é o fato de dizerem tanto ao nosso íntimo e, aparentemente, esta não se apresenta de maneira diferente.

À procura de respostas.

Baseado em fatos reais, acompanhamos a trajetória do badalado jornalista Lee Strobel (muito bem atuado por Mike Vogel), sempre massageado em seu ego pelo sucesso que suas matérias fazem, pela recente promoção no trabalho e pelo livro que escrevera. Ateísta daqueles extremamente radicais, Lee repassa à sua pequena filha esses valores nos quais acredita com determinada força. Sua mulher, Leslie (pela tão boa quanto Erika Christensen), acompanha o inteligente marido, mas sem evidenciar um posicionamento mais claramente. Após um episódio em que ambos quase perdem a filha, engasgada repentinamente, Leslie começa a ver que a vida pode não ser um mero emaranhado de acasos: uma enfermeira cristã salvara a pequena e, segundo ela, algo dizia para que fosse jantar naquele estabelecimento e não em outro. Esse algo é Deus.

Objetivando conhecer melhor esse Deus mencionado pela enfermeira-heroína Alfie Davis (nas mãos da carismática e apaixonante L. Scott Caldwell), Leslie resolve aceitar o convite da nova amiga para visitar a Igreja Protestante de cuja congregação faz parte. Aos poucos, a senhora Strobel vai sendo tocada pela Palavra à medida em que vai mergulhando na nova fé. Para desespero completo do senhor Strobel, que cogita até a separação: “eu quero a minha mulher de volta”.

“Perdendo-a” para aquilo que mais odeia, o habilidoso jornalista com coração de pedra resolve escrever uma matéria na qual comprovasse que a crença cristã é baseada em um falso acontecimento: a ressurreição de Cristo Jesus (sustentáculo do Cristianismo). Enquanto ele se aprofunda nessa pesquisa, consultando as maiores autoridades nos assuntos que advém desse tema, da mesma forma seu relacionamento conjugal se aprofunda em uma espiral de auto-destruição.

“Você é um homem da ciência ou um homem de Fé?”

Os temas mais humanos, demasiadamente humanos, são ressaltados nessa história de busca pelo auto-conhecimento e pelo entendimento do sobrenatural. A velha dicotomia Fé versus Razão: você é um homem de fé ou um homem da ciência? Em paralelo, podemos ver a nós mesmos, como se refletidos pela tela em nossa formação individual, isto é, a delicada construção do indivíduo, auto-confeccionado por egocentrismos e egoísmos, que, não raro, tende a se sentir superior a tantas coisas à sua volta: ao outro, a um grupo, ao todo… a Deus. Mesmo que, na maior parte do tempo, o Universo insista em nos relembrar que, na verdade, não somos, de fato, coisa alguma.

Se você, caro leitor, tem algum impedimento, bloqueio ou preconceito com assuntos religiosos (ou cristãos, tão somente), Em Defesa de Cristo pode ser assistido como uma obra para além da sua mensagem; é uma narrativa sólida, bem contada e bem dirigida, com cenas lindíssimas e, em muito, tocante, pois a fé (independente de qual ela seja) é o que nos faz levantar, a cada dia, de nossas camas. Sem fé, o indivíduo não viveria.

“Porque vivemos por fé, e não pelo que vemos.” (2 Coríntios 5:7).

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