Se você está lendo esse texto e espera encontrar uma crítica cuidadosa e embasada à série “Star Wars”, foi bom estar com você, mas eu recomendo que procure alguma outra coisa para passar seu tempo. Não que eu não seja capaz de escrever tal resenha, não que eu não saiba qual a nota de abertura no tema principal da trilha sonora de John Williams, não que eu não saiba que a primeira nave especial que aparece na abertura do filme é uma Corellian Corvette CR90 chamada Tantive IV e que aquela outra gigantesca que a persegue é uma Imperial Star Destroyer I-Class chamado Devastator. Não que eu não tenha de cor cada fala do filme original em inglês ou em português com a dublagem dos anos 80 da Herbert Richers – você escolhe.

Mas qualquer um pode escrever sobre esse filme sob estes pontos de vista. Qualquer um pode especular sobre cada um dos detalhes de cada uma das cenas, das atuações limitadas aos erros de rotoscopia dos sabre de luz na versão original antes de remasterização dos anos 90. É barato ser cínico com um filme de 40 anos de idade, filmado 15 anos antes de a computação gráfica ter alguma utilidade prática, com um orçamento de 10 milhões de dólares e uma equipe formada por um bando de nerds, alunos de universidade, atores desconhecidos, Alec Guiness e Peter Cushing pra dar credibilidade ao projeto.

O resultado final não é um filme perfeito, apesar de todos os Oscares que recebeu. Não é um filme à prova de críticas, mas é, assim mesmo, uma obra de arte magnífica e, gostem os eruditos ou não, é a realização cinematográfica mais memorável de todos os tempos. Há dois rostos que são universalmente conhecidos em qualquer lugar do mundo, por qualquer ser humano; Darth Vader e Jesus Cristo (ou John Lennon). Não é o crítico de cinema (que eu não sou) que escreve esse texto. É o menininho sentado em uma sala escura descobrindo pela primeira vez e em primeira mão o poder que tem uma boa história. Uma que rendeu… quantos bilhões mesmo? Foram os 10 milhões de dólares mais bem investidos da história da economia mundial. Uma que tem o mesmo número de fãs que os maiores times de futebol somados, o mesmo número de seguidores de algumas religiões e só ainda não foi reconhecida como tal pelo medo de algumas autoridades (yep! Já houve o pedido de inclusão da Força na lista de religiões oficiais em alguns paises).

O primeiro filme – “Star Wars” (e não “Episode IV – A New Hope” como os “corksniffers” gostam de apelidar) – foi a tentativa de um jovem George Lucas de transformar em imagem aquela história que ele escreveu no caderno durante a aula de física da oitava série. Apoiando-se no sucesso de seus 2 (dois!) filmes anteriores – um longa sobre adolescentes em seus carros nos anos 60 e um sobre uma distopia de gente sem pelo com o Robert Duvall – Lucas, para dar vida à sua ambiciosa visão artística, se utilizou de toda a tecnologia de ponta do fim dos anos 70: Isopor, modelos Revel, arame e bombinhas de São João.

Nenhum Pixel foi ferido durante a filmagem de Guerra nas Estrelas. Rasantes da estrela da morte foram filmados na calçada, usando luz do dia e câmeras fotográficas comuns, antenas de radio foram montadas na manopla de um flash de uma câmera fotográfica dos anos 40 e assim nasceram espadas laser, um anão foi metido num latão e criou-se o robô mais adorável do mundo. As estrelas do filme eram um carpinteiro, aquele seu primo surfista de Saquarema, uma adolescente bochechuda, o marombeiro da academia da esquina, um vara-pau de dois metros e meio de altura vestido de “Conga”, e Sir Alec Guiness, consagrado ator britânico ganhador do Oscar que participou do filme meio a contragosto já que era católico e todo aquele papo estapafúrdio de magia-espacial o incomodava.

Ainda assim você amou o filme, não amou? Você e cada um dos outros habitantes desse planeta com exceção daquele ex-aluno da PUC que cita Foucault, lê “Em Busca do Tempo Perdido” uma vez por ano e organiza maratonas de Glauber Rocha na casa de praia de sua tia Abigail em São Pedro da Aldeia. Até Stanley Kubrick deve ter ficado bolado quando reassistiu sua obra prima 2001 depois da cena de abertura de Guerra nas Estrelas.

Noooot!

Ah, e apenas pra deixar claro, Han shot first.

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