de·pres·são 
(latim depressio-onis)
substantivo feminino
1. Abaixamento de nível.
2. [Figurado]  Enfraquecimentoabatimentofísico ou moral.
3. Achatamentocavidade pouco profunda.

Segundo o dicionário Priberiam, é essa a definição de depressão. Segundo minha própria experiência, é quando um sentimento de desespero, como se você caísse num abismo infinito, te invade e não diz o porquê e tampouco quanto tempo ficará. Esse mesmo sentir te faz pensar em coisas escrotas, que, se pronunciadas, assustam e, se não ditas, consomem. Também te faz sentir em câmera lenta, como se a gravidade fosse uma inimiga contra a qual você luta com força para conseguir se mover. Uma vez ouvi que de alguém que não era de seu feitio “ficar de autocomiseração” como resposta para a minha inércia. Neste sentido, o filme “Melancolia“, de Lars Von Trier,  retrata muito bem a sensação da depressão ao usar a metáfora de um planeta em uma lenta rota de colisão com o lugar onde você habita e, assim como a personagem, não parece que há o que fazer que não se entregar. Você pode senti-la vindo. Você carrega, como uma sombra, a depressão em suas costas, e sabe que eventualmente ela te revisitará, como uma mudança de tempo nos dias de verão.

A importância do Setembro Amarelo vai além da prevenção ao suicídio, uma consequência da “doença do século” como muitos sociólogos descrevem a depressão – e com razão, em parte. Acredito que seu objetivo seja especialmente fazer com que as pessoas que têm pensamentos sombrios não se sintam sozinhas e, mais que tudo, não desistam de si mesmas. Sendo um assunto delicado, já que não se pode generalizar um único gatilho para todos que sofrem de depressão, a mídia deve ter cuidado ao usar o tema. Caso contrário pode fazer uma estupidez do tipo 13 Reasons Why em que fica claro que, ora, a depressão e suicídio vendem então vamos usá-los de maneiras superficiais para lucrar.

Pequena Miss Sunshine traz consigo sortidas perspectivas da psiquê. Frank (Steve Carell) tentou se matar ao se deparar com diversos âmbitos de sua vida ruindo. A partir do fracasso dessa tentativa ele se reaproxima de Sheryl (Toni Collette), sua irmã, e passa a conviver com os sobrinhos e o restante da família. Inicialmente apontado como o desajustado do grupo, já que o suicídio é tido no senso comum como “covardia” ou “coisa de gente doente”, ele curiosamente é inserido numa família cheia de peculiaridades psicológicas.

Richard (Greg Kinnear) é um entusiasmático vendedor que aparentemente acredita que o mundo se divide tão somente entre os perdedores e os vencedores. Ao menos é isso que sua técnica de autoajuda, de sua própria criação, berra aos sete ventos. Dwayne (Paul Dano) é um adolescente pessimista que faz voto de silêncio em nome de sua única vontade da vida: entrar para a Aeronáutica. O vovô (Alan Arkin) é um velho rabugento que só quer tocar uma punheta e cheirar uma carrerinha em paz – e no tempo vago é o treinador de sua neta, Olive (Abigail Breslin), uma menininha que sonha em ganhar um concurso de beleza.

Até que em meio às instabilidades de cada membro da família chega a notícia de que a garota foi selecionada para o concurso dos sonhos na Califórnia e cabe a eles por de lado as crises em nome da pequena. A família embarca numa roadtrip improvisada em uma kombi amarela mequetrefe, tentando sintonizar suas diferenças de modo que a chegada à competição seja prioridade. Todos ali estão cansados de suas próprias merdas e a novidade acaba se tornando a coisa mais importante do momento, seja para preencher seus vazios ou realizar o sonho de Olive.

Se de início o “perdedor” era Frank, aos poucos revela-se que nem tudo é perfeito – a começar pelo que panfleta instruções para alcançar o sucesso. O patriarca da família passa por um momento de ruptura diante da queda daquilo que ele tentava enfiar goela abaixo a seus clientes mas, principalmente, a si mesmo. Seu maior medo era ser um perdedor e eis que, diante de uma proposta de trabalho furiosamente negada, ele se vê como um fracasso. Cai por terra a manequeísta divisão de mundo que o orientou, falsamente, por toda a vida. A partir daí, no momento em que é obrigado a descer da imaginária torre de marfim do “vencedor”, o cara dilui seu comportamento tacanho e aproxima-se da família. Como um efeito dominó, cada um deles sente-se derrotado dentro de suas expectativas. E o emaranhado daquele relacionamento só então começa a fazer mais sentido, ironicamente pela ligação que todos de certa forma têm ali: o fracasso.

Chega então o decisivo momento em que Olive vai competir, o tão esperado ápice, o suprassumo de todas as expectativas e objetivo de vida, momentaneamente, de todos ali. Acontece que durante a viagem eles passaram por reflexões. As decepções fizeram com que a grande espera por uma salvação (representada por aquele concurso), uma espécie de validação, fosse desnecessária. Afinal, aquilo tudo parecia fake. As candidatas eram mini bonecas, todos sorriam até as bochechas doer e era claro que a mais artificial ganharia a disputa. Olive não tinha chances. E essa conclusão não vem de forma tristonha; a garota é uma outcast, o que a faz muito especial nesse contexto. A epifania de que não é necessário competição alguma pra legitimar uma existência vem de tal forma que, unidos pela frustração, a família tira o melhor que a situação pode dar. E que se foda se isso é sinônimo de ser parte do time dos perdedores.

Sofrer não é algo que deve ser temido. Não que seja algo que mereça anseio, também. No entanto, a consciência de que nossos cacos de vidro, tão incômodos e difíceis de lidar, façam parte do que chamamos de “nós” é essencial. Aos que recebem a depressão em periódicas visitas, ou aos que convivem com maior proximidade, torna-se muito difícil aceitar que aquilo não deve definir quem você é – mas faz parte, sim, de sua personalidade. E tudo bem. Por que, por mais doloroso que seja, isso não deve te diminuir enquanto pessoa. Aos que não convivem com ela, por vezes é difícil não alocar os demais pro lado dos “perdedores”. Mas não somos. E, caso sejamos, foda-se. De verdade.

Titubeei muito antes de escrever falando sobre esse tema pois questionava minha moral pra falar a respeito. O que eu teria a dizer, afinal? Será que justo eu, que encaro uns altos e baixos fodidos, tenho propriedade pra alertar sobre a importância de não desistir de si, quando isso já me pareceu opção? Bem, aí que me veio à cabeça que talvez justamente isso me faça digna pra falar um pouquinho.

“Suffering makes you who you are”, Frank conclui. E depois de engolido, digerido, ainda que com muita azia, um prato cheio… aquilo é parte de sua história. Abrace-se ainda que com alguns caquinhos de vidro. E tenha a (talvez única) certeza que não é o único a tê-los.

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