Em 1976, Sidney Lumet lançava seu clássico “Rede de Intrigas“, que viria a ganhar 4 dos 10 Oscars para os quais foi indicado. O longa contava a história de um âncora de telejornal de uma emissora mais ou menos que tem um colapso nervoso ao vivo e começa a falar verdades atrás de verdades no ar. Seus alvos são a televisão, a sociedade de consumo tudo o mais que, na década de 70, contribuía para a decadência da sociedade. Este senhor, ao invés de ser demitido, ganha seu próprio programa no qual ele continua a cuspir verdades, levando aquela rede de TV meia boca a se tornar a número 1 da audiência e, no processo, brindando-nos, espectadores do filme, com uma das mais antológicas cenas da história do Cinema no ainda atual monólogo de Peter Finch (abaixo ilustrado), justamente premiado como melhor ator pela Academia naquele ano.

Esta é a Sua Morte – O Show é, basicamente, uma atualização low cost do que Lumet já magistralmente fizera 40 anos antes. Adam Rogers (Josh Duhamel) é um apresentador de um reality show merdíssimo que faz com que mulheres se digladiem para ver quem vai casar com um milionário. Mais ou menos como o famigerado e horroroso “The Bachelor”. Logo no início do filme, naquela que é a melhor e mais impactante cena da obra, estamos diante do episódio final ao vivo deste programa quando, frustrada pela derrota, uma das competidoras comete um ato dantesco.

Adam reage rapidamente e se torna um herói nacional imediatamente. Isto, é claro, leva a emissora a colocá-lo em seu noticiário para falar uma meia dúzia de palavras roteirizadas sobre o ocorrido quando Adam, ainda em choque pelo que ocorrera, resolver dar uma de Peter Finch e despeja uma quantidade absurda de verdades e acusações à mesma sociedade de consumo e a ligeiramente diferente televisão da qual Finch reclamara em 1976 em “Rede de Intrigas”.

“Quem quer se casar com um milionário?”

Assim como o personagem de Finch, Adam cai pra cima. A diretora da emissora, Ilana (uma assustadoramente esquelética Famke Janssen), tem a ideia de criar um programa em que as pessoas poderão cometer suicídio ao vivo e quer Adam, o novo herói do povo, para apresentá-lo. Após alguma relutância por parte de Adam, este entende que conseguirá passar uma mensagem edificante ao público, que tal programa poderá ser o choque de realidade que o mundo precisa para começar o processo de mudança que o rapaz acredita ter iniciado com seu discurso dias antes e que ele poderá dar alguma significado aos suicídios de pessoas que já iam fazê-lo de qualquer maneira.

Valendo-se também das vicissitudes enfrentadas pela irmã de Adam, Karina (Sarah Wayne Callies), uma viciada em recuperação, e por Mason (o próprio diretor Giancarlo Esposito, o Gus Fring de “Breaking Bad”), um sujeito que sofre todas as pressões possíveis para conseguir manter o status e a qualidade de vida de sua família pela qual tanto batalhou, o filme faz perguntas que são pertinentes neste momento em que vivemos. Para que serve a televisão? Qual é o seu papel social? Estamos todos tão entorpecidos pela sociedade de consumo e pelo fluxo infindável de informações inúteis que perdemos qualquer sentido de empatia pelo próximo?

Apesar de parecer só uma desculpa para as muitas mortes incrivelmente gráficas transmitidas pelo tal programa (e por muitas vezes parece MUITO), Esta é a Sua Morte vai bem além, oferecendo um olhar para dentro da psiquê humana e da aparente falta de sentimentos que toma conta de um mundo onde o “parecer”, cada vez mais, se torna incomparavelmente mais importante do que o “ser”.

Infelizmente, mesmo fazendo perguntas tão necessárias e pertinentes, a execução peca em alguns momentos, assemelhando-se por vezes a telefilmes da década de 90 (quando isso ainda era sinônimo de coisa ruim). Atuações um tanto ocas, diálogos rasos e uma bela forçada no roteiro se aliam a uma trilha sonora genérica ao extremo e uma penca de mortes tão gráficas quanto gratuitas para fazer com que este filme não realize todo o enorme potencial carregado por sua premissa.

Mesmo com suas faltas, Esta é a Sua Morte – O Show, como deve ser com a boa arte, convida quem dela usufrui a fazer diversas reflexões sobre nós mesmos, sobre o papel de cada um nessa sociedade e a questionar o que estamos fazendo ao receber toda a nossa verdade da televisão e, hoje em dia, da internet. As mesmas perguntas feitas por Lumet em 1976 são repetidas e atualizadas por Esposito em 2017, ainda que em uma roupagem que sequer chega perto ao que Lumet realizara. A resposta, por sua vez, continua tão intragável quanto outrora.

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