Papu Curotto faz sua estréia no formato longa-metragem com o filme Esteros, inspirado em sua obra anterior, o curta-metragem “Matías y Jerónimo (seu primeiro título cinematográfico). Andi Nachon assina ambos os roteiros, os personagens são os mesmos e a sinopse muda um pouco, apenas. Nessa nova produção, em associação Argentina-Brasil (com participação da Ancine, inclusive), o diretor traz bastante da identidade argentina no universo das imagens em movimento: delicadeza, sensibilidade e força.

O argentino Matías (Ignacio Rogers) é um jovem bem-sucedido que mora no Brasil e namora uma garota sulista daqui. De início, temos a construção dele como um rapaz quieto, que, aparentemente, guarda para si muitos conflitos. Ele se dá bem com a guria, que parece se entregar mais no relacionamento. O possível estranhamento causado pela atitude dele pode ser resultado de uma relação entre estrangeiros. No entanto, tudo fica mais claro quando Jerónimo (Esteban Masturinichega ao local onde o casal está, na Argentina, para maquiá-los para uma festa a fantasia. No primeiro contato olho a olho, os dois se reconhecem: eram grandes amigos de infância, cuja relação é contida pela mudança de país por parte de Matías e sua família. Tom SawyerHuckelberry Finn em potencial tornaram-se, a priori, dois estranhos. Mas estranhos que mantém dentro de cada um a essência daqueles dias passados.

O disfarce superficial da essência de cada qual.

A partir daí, somos levados para a comparação passado-presente. Os flashbacks nos fazem confrontar e comparar com a atualidade. E vão explicar toda a tensão homoerótica que, em ambos os olhares, transbordou enquanto Jero maquiava o (ex)amigo Mati. Aqueles olhos, focados, vidrados um no outro, como se pudessem atravessar o espaço em busca do tempo perdido. O que a história de cada um guarda, secretamente, a ponto de fazer Matías nunca ter mencionado para a própria namorada seu melhor amigo de anos atrás? Como se apagado deliberadamente; como se maquiado de algo diferente do que realmente é, escondendo seu verdadeiro significado.

Os dois, que, de início, se tratam como apenas conhecidos, como alguém que passou e não teve importância efetiva em suas vidas, são incapazes de segurar o que há anos parece estar enjaulado, porém vivo. Matías e Jerónimo revisitam os espaços passados preenchidos por Mati e Jero (Joaquín Parada e Blas Finardi Niz). Ficamos, portanto, de frente para a releitura e para a origem. O que eram e o que se tornaram. O que buscavam e o que continuam a procurar. “Perguntas são um fardo e respostas uma prisão para o indivíduo” (Bruce Dickinson).

Espaço de experiência e horizonte de expectativas.

Papu Curotto rege uma história simples, sensível e que fala sobre a essência humana. Coloca-nos diante do resultado de um espaço de experiência em contraposição a um horizonte de expectativas (que surge aqui como algo não experimentado, algo que se pode descobrir e está no universo de projeções de um futuro do indivíduo). Revisitar o passado é sempre abrir a possibilidade de serem libertados velhos fantasmas. Seria o pesado fardo que Mati e Jero passaram a carregar, a prisão de Matías e Jerónimo?

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