Há 70 anos, o presidente da IBM dizia: “acho que há no mundo mercado para talvez uns 5 computadores”. Há 54 anos a segregação racial era algo não só moral, como legal nos EUA, em especial nos estados do Sul. Há 10 anos a Sessão da Tarde deixava de ter relevância nas nossas vidas.

“Estrelas Além do Tempo” é um filme que incrivelmente consegue juntar todas essas coisas e as transformar em um filme correto e redondo. Tudo aqui funciona. A direção é segura, o elenco é bem azeitado e o roteiro é amarradinho. E só. Não há nada de extraordinário aqui, nada que salte aos olhos e sem dúvida nada que enseje uma indicação ao Oscar de melhor filme. O longa ainda concorre por roteiro adaptado e atriz coadjuvante, na figura de Octavia Spencer.

Dorothy (Octavia Spencer), Katherine (Taraji P. Henson) e Mary (a excelente cantora Janelle Monáe) são computadores humanos na Nasa da década de 60. É, meninos e meninas, houve uma época em que os computadores eram pessoas que ficavam sentadas num escritório computando números. Esses computadores não acessavam o PornHub e só permitiam ver (ou experimentar) qualquer coisa pornográfica mediante autorização expressa ou prática de crime.

Essa turminha do barulho liderava um grupo de mulheres negras que fazia toda a matemática dura (seja lá o que caralhos isso signifique) para os engenheiros da Nasa em um programa que se iniciou em 1943 e do qual Dorothy havia sido pioneira. Aparentemente, essa tarefa era algo, àquela época, reservado às mulheres, uma vez que havia também um grupo de mulheres brancas que  fazia o mesmo, mas, de acordo com o filme, em um lugar mais florido e arejado, deixando claro o vacilo perpetrado contra as negras.

O que acontece então é que todas elas, cada uma em sua área, tem o seu momento de sambar na cara da sociedade. Katherine esculacha Sheldon Cooper, Dorothy arregaça Mary Jane Watson e a IBM e Mary ensina uma bela lição ao seu marido e a seus colegas de trabalho, todos atores ainda meio irrelevantes demais para eu fazer aqui o mesmo chiste que fiz com os demais.

Mesmo lidando com temas pesados como o racismo e a segregação racial nos EUA daquela época, o diretor o faz de forma branda,  sem lidar profundamente com as gigantescas transformações sociais que tomavam conta em especial do Sul norte americano naquele momento da história e preferindo se concentrar num romance um tanto desnecessário, mas formulaico e obrigatório na indústria, de Katherine com Remy Denton. A escolha aqui foi por olhar como 3 mulheres negras conseguiram vencer todas as barreiras que eram constantemente jogadas aos seus pés não com paus e pedras, mas com nada mais que seus intelectos e senso de oportunidade.

Por exemplo, Dorothy, a personagem vivida pela indicada ao Oscar Octavia Spencer, observa uma oportunidade quando um trambolho gigante da IBM aparece por lá e se torna uma das primeiras programadoras da história da humanidade. Talvez a primeira mulher. Certamente a primeira mulher negra.

Dorothy, Katherine e Mary, todas muito mais inteligentes que você.

Em suma, é um bom filme de Sessão da Tarde. Não há um palavrão proferido, temas pesados e sérios como racismo e sexismo são enfrentados de forma leve. As filhas das protagonistas têm cara de que não valem nada e trazem um sorriso aos olhos simplesmente por serem fofas. Mas não tão fofas e fodas, na mais positiva acepção dessa palavra curinga que é o foda, quanto as pessoas que inspiraram essa história e que, além de terem quebrado as barreiras da raça, do intelecto e da tecnologia, talvez consigam até mesmo tornar a Sessão da Tarde relevante de novo.

 

 

 

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