Posso dizer que tive o privilégio de assistir o longa “Eu, Daniel Blake” antes de sua oficial estreia no Brasil durante o Festival do Rio 2016. Era uma despretensiosa escolha dentre títulos britânicos, fruto de uma sinopse lida de relance. No entanto, tive uma das mais incríveis experiências que a entidade cinematográfica pôde me conceder.

O filme bebe da tóxica burocracia relacionada ao sistema de “welfare” na Inglaterra, problemática comum a tantos outros países liberais. Interessante uma temática que desmascara a pseudo perfeição dos países desenvolvidos, a qual reverbera potentemente sobre os demais do globo. Essa falsa impressão nos deixa míopes e alienados em nossos próprios problemas políticos, fazendo-nos esquecer que os vizinhos não são exemplo pra tudo. O filme certamente foi um choque àqueles que admiram qualquer governo e/ou país e desprezam o próprio.

Após sofrer um princípio de ataque cardíaco, o personagem que dá nome ao título do filme é afastado do trabalho e tem que recorrer à ajuda estatal para sobrevivência. Há o paradoxo de não ser aceito no mercado por seus problemas de saúde e, ao mesmo tempo, não poder ser beneficiado pelo Estado em função de sua incompetência em encontrar um emprego, por exemplo. “Eu, Daniel Blake” mostra um sistema inclinado a binaridade; ou seja, pouco tolerante a desvios em seus, por vezes inatingíveis, pré requisitos que garantem o direito dos benefícios aos cidadãos. O idoso é um destes (des)casos, agravado pela exclusão digital que este sofre por conta da inaptidão diante da automatização burocrática.

Em meio à impotência diante desse sistema que negligencia e desumaniza, o telespectador não só exerce sua empatia como também dialoga com bons sentimentos vindos, irônica e indiretamente, do caos. Blake conhece Kate e seus dois filhos em situação ainda mais precária que a sua própria, e, juntos, tentam formar alicerces rumo à esperança.

A relação dos dois ameniza a dor e angústia exalada pela situação, que vai sendo escalonada até beirar o insustentável. Voltamos a acreditar, ao menos um pouco, no potencial do ser humano através do afeto entre Blake e Kate. A maneira que o filme captura o telespectador é polimórfica e transita do depressivo ao puro e belo. Saí do cinema agradecida pelo acaso da escolha, da mesma forma que o acaso presenteou os personagens e lhes trouxe bons frutos. E que o acaso continue orquestrando e trazendo sentimentos bons ainda que de uma tela de cinema.

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