O título polêmico e perturbador de “Eu matei minha mãe” sugere a premissa de um assassinato mais desumano que o normal: o da figura materna. Pecado odiá-la, ou cogitar desvincular-se emocionalmente de sua própria mãe. Mas como a película alega, é também uma hipocrisia – “quem nunca, por um segundo ou por um ano, odiou a própria mãe?”

Não há aqui uma apologia ao crime – o personagem não é nenhum Norman Bates da nova geração cinematográfica. Neste retrato visivelmente autobiográfico, Xavier Dolan traz sua mãe como a figura inalcançável de ter e inaceitável de não ter. A montanha russa da relação progenitora-filho é decerto mortífera emocionalmente, impedindo que os dois conduzam uma relação estável. Construída através de nuances dicotômicos, a personagem é mostrada como repugnante e maltratada. É difícil, por vezes, definir se a problemática gira em torno apenas de um adolescente com questões freudianas maternas ou se, de fato, aquela figura é uma mãe despreparada.

Contraditoriamente, como é a tendência de sentimentos avassaladores tais como amor e ódio – considerando a linha tênue entre os dois -, a mãe ama o filho, por mais fria e indiferente que possa se mostrar. Em uma cena

explosiva na qual, após julgamentos e culpas jogadas em suas costas, o filho pergunta o que ela faria se ele morresse ali, agora, ela não responde. Quando ele se vira e vai embora, a frase que a sucede é: “Morreria amanhã”.

Incompreensíveis por muitas vezes, são assim definidos os laços humanos. O amor nem sempre é saudável, mesmo que maternal – ou fraternal. “Eu matei minha mãe” fala muito mais de vida do que sobre o que seu título alude. Dolan assassina aqui, por meio da arte, seus demônios guardados da fase de criação. E o faz brilhantemente.

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