Minha mãe sempre me inseriu política e historicamente desde nova. Lembro que não existiam tabus para uma série de assuntos, que iam dos sexuais aos absurdos da Humanidade. Quando penso nos choques que senti nessa época de iniciação e descoberta, ainda superficial e inocente, perante a algumas atrocidades humanas – como o Holocausto, Santa Inquisição, golpes de Estado – um me é muito fresco: o horror diante da escravidão. Lembro muito bem o quão me parecia impossível conceber que houve sociedades que desumanizaram indivíduos ao torná-los escravos; era como se minha cabeça travasse. Ainda hoje, é claro, a ideia de escravização me dá repulsa; como historiadora sou exposta há algumas vertentes que tentam explicar sua existência para além da etnia, mas não me convencem por inteiro. Em especial no recorte Moderno, onde o preconceito não era movido apenas à etnocentrismo mas a ódio por uma cor de pele.  Contudo, por maior que seja a exposição ao tema, dado à quantidade de artigos, teses, livros e à atenção que o Cinema contemporâneo vem lhe dando, quando o assunto é racismo a Larissa de menos de uma década me visita. Sinto quase exatamente o mesmo choque ao olhar pra esse lado da História e relembrar seus infelizes desfechos.

O documentário “I Am Not Your Negro” ambienta-se no período de segregação racial e luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, em específico durante os anos 60. Baseado no olhar íntimo e sensível do escritor James Baldwin e de sua obra deixada sobre o assunto, o longa retrata com intensidade o que era ser negro nos Estados Unidos – e como isso ainda reflete no que é ser negro no país. Baldwin era amigo próximo dos ativistas Medgar Evers, Malcolm X and Martin Luther King, todos assassinados durante a luta. Como o autor mesmo diz, ele atuou como uma testemunha: observou, morando fora do país, a repressão para com seus semelhantes; presenciou, ainda que distante, o assassinato de parceiros com quem tinha elos pessoais e ideológicos.

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Cartazes como “Who needs niggers?” e “We won’t go to school with negros!” me fizeram arrepiar a espinha ainda que já conhecesse a história.

E o que ele poderia fazer além de testemunhar – já que, apesar da causa em comum, não se encaixava nas vertentes da resistência? Denunciar. Como artista, intervir como lhe cabe: usar as mais escolhidas palavras para contar a História em muito silenciada. Uma gloriosa, brilhante, assustadora e espiritual denúncia: é isso que o documentário joga em cima de você na cadeira do cinema. E é quase palpável seu peso – seu soco? É. Um soco. Uma crítica profunda que não se limita à ilustração das consequências do racismo mas a, principalmente, dissecar o que a sociedade projetou no negro. Tem sucesso ao desromantizar o mito do “american way of life”, vazio e maçante, e ao mostrar o deturpado senso de realidade da elite branca que criou o preconceito. Perpassa por análises antropológicas, sociais e, numa ácida metalinguagem, pelas próprias mídias visuais. A imagem do negro que “merecia” ser odiado não foi criada do dia pra noite. A segregação não era novidade; era uma extensão do ideal escravocrata e recurso maquiado de “seguro” contra a imagem construída por décadas do negro enquanto ameaça – social, econômica e política. O negro, tão americano quanto os demais, era considerado ameaça para seu próprio país. Amaldiçoado com estereótipos como de ser predador sexual, desonesto, endividado, violento ou feito para servir; é nisso que escolheram acreditar. E o filme discorre perfeitamente sobre como o racismo é, na verdade, um reflexo da insegurança de uma sociedade que se fundou baseada no trabalho escravo e que, sem a forçada submissão negra, não seria nada. Eu repito que a segregação foi um próximo passo da ideologia escravocrata; afinal, como cogitar sair da zona de conforto próspera e estrutural fundada através de dominância branca?

Para minha satisfação, essa temática tem seu destaque no Oscar 2017 quando se trata dos documentários. Junto com “13ª Emenda”, “I am not your negro” concorre à Oscar de Melhor Documentário. E eu animadamente torço para que ganhe. Sua abordagem poética, emocional, lúcida e assertiva lhe conferem merecida atenção e valorização. Um grande amigo, negro, acompanhava a sessão comigo (Ivo, seu lindo!) e partilhou do mesmo encanto para com o documentário do que eu, o que me diz muito. Sua identificação legitima um dos mais importantes propósitos do filme: contar a História, por muito contada pelos “dominantes”, sob a ótica de quem sabe as consequências do outro lado e lhes dar voz de representação.

Uma das frases que mais me motivou entrar na faculdade de História foi de um professor que me disse que não temos nada que não o passado; o presente é efêmero e o futuro, incerto. Em “I Am Not Your Negro”, essa frase se anexou com a remada ideológica do filme: “History is not the past, it’s the present”. A História reverbera, como uma ressonância, e o documentário vem para que não esqueçamos disso.

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