“O inferno são os outros. Projetamos sobre eles nossa realização, e aguardamos deles algo que amenize o vazio que nos habita.”

Com esse simples pensamento, Sartre diagnostica grande parte da fonte da infelicidade e frustração humana. Todo indivíduo deseja reconhecimento por parte do coletivo. Um afago, carinho ou aplauso já basta. O desprezo da sociedade vai partindo e quebrando o ser humano até que só sobra um ódio sórdido e sombrio para com o mundo.

Olga Hepnarová foi mais uma que não encontrou seu lugar ao Sol. Sem conseguir se misturar com seus semelhantes, a menina desde cedo sentiu na pele a indiferença e as vezes até ódio por parte dos outros. Ovelha negra da família, jogada em hospitais psiquiátricos por tentativas de suicídio e sem nenhuma amiga, Olga vai adquirindo traços cada vez mais escuros até tudo culminar no trágico acidente de 1973. Na época, trabalhando como caminhoneira, ela joga o veiculo que dirige na calçada e mata 8 pessoas na antiga Checoslováquia. Assume a culpa, justifica seus atos como uma vingança contra a humanidade que a sentenciou à uma vida de agonia e solidão. Finalmente é condenada e enforcada em 1975.

Essa é a tragédia que a dupla de diretores Petr Kazda e Tomás Weinreb adaptam para as telonas de forma estilizada, monótona e, acima de tudo, gélida. Num preto e branco dicotômico, a narrativa foca em tudo que levou uma menina extremamente frágil a cometer um crime tão terrível quanto o homicídio de 8 inocentes. Porém, nem mesmo com a intimidade da câmera Olga encontra conforto.

A película não se decide se canoniza a tcheca como padroeira dos marginalizados ou se a coloca na prateleira dos loucos desvairados. Michalina Olszanska, que interpreta Olga, alterna entre protagonista de filme de terror prestes a vomitar satanismo na cara do espectador e uma vítima de circunstâncias trágicas. Em nenhum das duas nuances ela brilha. O resto do elenco não escapa de seus personagens rasos e de um maniqueísmo desagradável.

Apesar de seu preto e branco agônico, cortes secos e de todo o o sofrimento da história real, o filme simplesmente não consegue instigar ou emocionar quem está sentado no cinema. Parece mais um documentário mal feito que qualquer outra coisa. Entre uma tragada e outra de seus inúmeros cigarros, Olga respira indiferença tanto dos que a cercam quanto da produção que joga inúmeras perguntas para quem assiste, mas foge de qualquer debate um pouco mais controverso.

Questões como homossexualismo, loucura e suicídio são abordados de maneira morna e superficial. Olga fica estagnada entre a insanidade e insegurança. Apesar de todo o filme ser dedicado ao desenvolvimento dela, Olga pouco muda. Começa o filme mergulhada em solidão, termina o filme mergulhada em solidão. E o espectador nem a ama nem a odeia, só quer que o filme acabe. Talvez o único mérito seja mostrar o aparecimento da equação insegurança-medo-ódio, bem starwariana e bem simplória.

Olga e Anakin tem muito em comum, inclusive. Intérprete ruim, filme ruim, personagem mal desenvolvido e apenas esporádicos momentos de brilho, se bem que acho que isso Anakin não possui.

“Eu,Olga Hepnarová” não consegue entender sua protagonista, desperdiçando todo seu potencial. Termina por ser uma mistura de “The Evil That Men Do”, do Iron Maiden com “Creep”, do Radiohead, sem chegar nem perto da magia de nenhum dos dois. De qualquer forma, Olga continuará concordando com Sartre, só que dessa vez seu inferno são os outros do cinema.

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