A existência de um personagem principal – apesar de ser comum – nem sempre é um elemento necessário ou imprescindível para uma narrativa cinematográfica. Pelo menos não no sentido estrito que conhecemos, isto é, alguém interpretado por um ator ou atriz. Recentemente, na resenha que fiz sobre “Dunkirk, ressaltei o fato de nesta obra não haver algo semelhante. Em Vôo United 93, por exemplo, é bem evidente que o “personagem principal” da história é o próprio episódio abordado. A produção de Pablo AgüeroEva Não Dorme, segue esta linha ao trazer não um fato histórico ou alguém que seguiremos durante 1h25 de desenvolvimento. Aqui, este personagem e fio condutor é o corpo, já sem vida, de Eva Perón.

Em plena crise governamental na Argentina, o presidente Perón sofre investidas de grupos para tomar o poder, enquanto tem que conviver com a perda de sua mulher Eva, ícone absoluto na História Argentina. Multidões visitam seu corpo para se despedir da voz forte que defendia os direitos do povo. Tão expressiva é sua figura que ela passa por um processo de embalsamação. Surge, então, a primeira parte do filme, que é dividido em três momentos. Assim que o meticuloso trabalho é realizado, os contra-governistas e golpistas realizam uma ação para abduzir o corpo e escondê-lo, em uma tentativa de impedir a população em continuar seu culto à personalidade daquela figura que, ideologicamente, fora atacada. Tudo é narrado pelo militar antiperonista interpretado por Gael García Bernal, que aparece muito pouco.

Gael, o vilão narrador.

O momento seguinte é o transporte do corpo por dois militares de gerações distintas. Um conflito se instala, pois o jovem soldado não deveria saber o “conteúdo” do “lote” carregado pelo caminhão. Quando descobre que se trata do corpo de Eva, o garoto se volta contra o velho superior (veterano militar argentino curiosamente interpretado pelo francês Denis Lavant). O momento seguinte é um grupo de insurgentes contra o então governo militar, que sequestra o presidente argentino pós-Perón, Aramburu (Imanol Arias), durante o golpe de Estado, sendo ele um dos responsáveis pelo rapto do corpo. E, após isso, a conclusão do filme, fechando (ou não) o “mistério” acerca do desaparecimento de Eva.

Entre essas três partes, algumas imagens reais de arquivo nos colocam de frente para o fenômeno Evita e o apelo que tinha às massas argentinas. Cada um dos três pedaços ocorre, quase que exclusivamente, em três locações diferentes, uma específica para cada. Não há, como dito, o desenvolvimento clássico de personagens, que também mudam a cada “capítulo”. Não há, ainda, uma linha tradicional de evolução da narrativa, atingindo um clímax, após um crescendo. São como os três momentos mais importantes da vida do corpo sem vida de Eva Perón.

Duas gerações interligadas pela memória

Agüero busca algo muito rico aos argentinos em geral para a realização deste filme: a memória. No trecho do transporte, o superior militar questiona ao jovem soldado “Se mandasse você partir para nunca mais voltar. Me obedeceria ou não?”, após o aceno positivo do garoto, ele continua “E se eu te mandasse esquecer o que viu?”, “Não” é a resposta. “Está me desobedecendo? Quem é que dá ordens aqui?”, e o mais novo responde em definitivo: “A memória”. O diretor mostra que alguns assuntos jamais poderão ser esquecidos e nos traz a certeza de que algumas personalidades continuam com sua força e ideais inabaláveis; ratifica que é através do que construímos que nos tornamos, de fato, imortais.

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