Em um dos mais tocantes diálogos de Fala Comigo, estreia auspiciosa de Felipe Sholl na direção e premiado no último Festival do Rio com o troféu de melhor filme, Mariana (Anita Ferraz) pergunta ao protagonista Diogo (Tom Karabachian) quando ele havia se sentido mais sozinho. “Acho que sempre”, responde o moço do alto dos seus 17 anos. Dezessete anos e solidão são quase sinônimos. Mas o amor é uma das forças que rompem o espaço sideral das dores adolescentes e nos traz de volta à Terra. Só que aqui a história de amor é um pouquinho complicada.

Diogo possui o estranho fetiche de ligar para as pacientes da mãe psicanalista (Denise Fraga) para se masturbar enquanto escuta a voz delas. Numa destas ligações, ele entra em contato com Angela (Karine Teles), recém-separada quarentona, deprimida e com tendências suicidas. Daí nascerá uma polêmica história de amor e um dos filmes mais interessantes da recente produção nacional.

O plot já revela um dos primeiros destaques da produção: um roteiro corajoso, bem urdido, de ideias inovadoras. Mesmo apostando na tradicional estrutura em três atos, quase que didaticamente marcados, o texto traz frescor, ousadia. Se uma crítica maldosa afirma que o roteiro é o ponto fraco da cinematografia brasileira, o trabalho do próprio diretor chega para derrubar um mito. É extremamente competente.

Aliás, a mão que escreveu a história revela a mesma competência quando ergue a batuta de maestro. A direção de Felipe Sholl consegue ser presente sem ser invasiva. O olho que organiza a imagem na tela é bem marcado, sensível, totalmente consciente da estrutura, da narrativa e do corpo fílmico. Tenho a tendência a implicar com o uso vulgar que certos diretores fazem dos closes. De agora em diante, vou usar esse filme para mostrar o que é usar close-up do jeito certo.

A consciência da direção permite que a película revele seu ponto mais forte: o belíssimo jogo de cena que esse estabelece entre o elenco. Olhando a organicidade das atuações, o espectador percebe o porquê de em tantas línguas representarem os verbos brincar e jogar com a mesma palavra. É bonito de se ver a trama sendo trançada quando atores estão inspirados. A ala jovem do elenco encontra o apoio necessário para se jogar no veteranismo do outro lado. Os atores veteranos reavivam a verve (com aliteração, please) no viço dos estreantes. Antes de me dedicar ao casal protagonista, é preciso destacar o trabalho precioso de Denise Fraga, como Clarice, a mãe e psicanalista. Era fácil cair no desmedido, pesar a mão, pois que o enredo permitia isso. Mas a atriz segue lindamente o caminho da contenção, das filigranas, do olho que fala. Sua dobradinha com Emílio de Mello (Marcos, o pai) é extremamente bem composta.

Karine Teles e Tom Karabachian brilham em seus papéis. Serviriam de verbete para a expressão química entre atores. Estreante na grande tela, ele constrói o seu Diogo com o furor e vulnerabilidade que adolescentes apaixonados exibem, vacilantes, mas determinados, em seus passos, ora de homem, ora de menino. Nos (raríssimos) momentos em que a técnica de interpretação ainda não amadureceu de todo, Karabachian se apoia na “atuação de olho”, aqueles momentos em que um ator de verdade transborda tudo que não foi dito apenas em um olhar. Uma carreira a se acompanhar.

Karine Teles é uma força da natureza em cena e não surpreende ter esta Angela garantido a ela o troféu de melhor atriz no festival do Rio. Lembro bem da impressão profunda que ela havia me causado com a atuação memorável na peça “O Branco dos Seus Olhos” (dica Metafictions: VÁ AO TEATRO). Aqui, ela prova ser uma intérprete mestrando em seu ofício. A construção da personagem abarca uma gama de camadas que se sobrepõem sem pedantismo. Angela é profunda, frágil, apaixonada, desmedida, inconsequente, corajosa e medrosa. Enfim, humana. E Dona Teles sabe muito bem o que está fazendo.

Por fim, o fim. A última cena deste Fala Comigo deixa uma maravilhosa última impressão. Aberto, bonito, relevante. E, leitores, esperem os créditos porque quem escolheu aquela canção “Safe and Sound” pra fechar o filme sabia que todo mundo precisa de uma trilha para os momentos WTF da vida.

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