O filme Fátima, de Philippe Faucon, foi o grande vencedor de melhor filme do 41º prêmio César (premiação anual para as produções francesas), trazendo uma temática bastante delicada para o momento atual do mundo: a dura vida de uma imigrante (neste específico, de uma argelina na França).

Fatima (delicadamente interpretada por Soria Zeroual) vive em constante conflito consigo mesma, com suas duas filhas e com sua cultura. Sendo uma estranha em uma terra estranha, ela não fala bem a língua local, ao passo que vê sua cultura natal ser abandonada por suas herdeiras. Tem mais de um emprego, pois precisa sustentar Souad (Kenza Noah Aïche), a rebelde de 15 anos, e Nesrine (Zita Hanrot), de 18 anos, que tenta cursar medicina. Fatima é mais uma entre milhares; parte da classe anônima, que nem todos veem, mas que é imprescindível para o funcionamento do país. Além disso, sofre o preconceito tanto de franceses, quanto de outros imigrantes argelinos, que criticam os costumes ocidentalizados de suas filhas e o desejo da mais velha de estudar.

Além de trabalhar, Fatima tenta aprender o francês.

A temática lembra por demais a obra brasileira Que Horas Ela Volta, dirigido por Anna Muylaert (curiosamente produzida no mesmo ano que o filme francês), na qual Regina Casé interpreta uma nordestina que deixa a família tentando, na cidade grande, ganhar dinheiro como doméstica e conseguir dar uma vida melhor para a filha, que também estuda para entrar na faculdade. Penso que o caso brasileiro seja ainda mais cruel, pois ambas as personagens (a nordestina e a argelina) passam por situações semelhantes; no entanto, aquela em seu próprio país.

Faucon opta por um filme bastante constante, sem grandes alardes ou cenas chocantes – o que considero um ponto alto -, fazendo-nos provar um pouco do cotidiano comum de Fatima.  Os conflitos, porém, não são tão desenvolvidos. Não vemos Souad ou Nesrine passando por algum tipo de segregação ou preconceito, devido à sua cultura. Pelo contrário, parecem muito bem adaptadas ao país. O que nos faz perceber Souad como uma rebelde sem grandes bandeiras a defender. Em Nesrine, ao contrário, vemos a esperança de alguém que, apesar das dificuldades (comuns até mesmo ao francês de classe baixa), corre solitária para cruzar a linha de chegada, alcançando seu objetivo. Ela é o fruto à imagem e semelhança de Fatima, que vence sua luta diária para manter não só sua família funcionando, mas toda a sociedade, pois, como ela mesma diz na melhor cena do filme, “tenha orgulho das Fátimas que cuidam das casas, das mulheres que trabalham”. A sociedade não sobrevive sem as Fátimas.

Fatima e Nesrine vendendo suas jóias para pagar os estudos.

Ainda que o filme seja melhor por sua temática do que por sua realização, é extremamente válido seu reconhecimento em uma grande premiação. Para além disso, neste contexto de intolerâncias em que vivemos atualmente, percebemos no Cinema um forte e determinado nado contra a correnteza violenta: em Cannes, venceu a história do operário inglês que sofre com a falta de auxílio; no Oscar, o preto, pobre e homossexual, que sofre com a falta de inserção social; e no César, a imigrante trabalhadora que sofre com a falta de auxílio e inserção social.

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