Eu sempre me identifiquei muito com M. Night Shyamalan. Eu era apenas um garoto quando decidi que queria fazer Cinema para o resto da vida. E assim como Night, mais do que jogar videogame, eu gostava de juntar meus amigos para fazer filmes caseiros, com uma câmera ruim e sem qualquer recurso minimamente viável. Os tempos eram outros e não tínhamos a facilidade da gurizada de hoje. Muitas vezes – a maior parte delas, inclusive – meu grupo não tinha a mesma vibe que eu e a saída era conseguir produzir meus filmes sozinho. Quando comecei a acompanhar Shyamalan, desde O Sexto Sentido – e, em especial, os extras de seus DVDs, que mostravam suas produções da época de moleque – passei a ver nele uma grande inspiração. A partir daí, a cada título que saía, já estava eu (e meu primo Bruno) ali esperando ser surpreendido pelo seu modo de filmar, extremamente delicado e preciso.

Acontece que ele fez não um, nem dois grandes filmes. Mas foi fazendo um melhor do que o outro. O belíssimo filme espiritualista supracitado, sendo sucedido por uma linda obra sobre heroísmo e vilania, em Corpo Fechado, para, então, dar lugar a uma preciosa produção sobre fé, na figura de alienígenas, com Sinais. Lembro-me, inclusive, do professor de física do pré-vestibular (onde conheci o amigo Ryan Fields, hoje ao meu lado no MetaFictions) falando deste, quando da sua estréia, como um “filme tenso, de monstrinho”. E eu só pensava comigo “monstrinho? O filme é sobre fé, pelo amor de Deus! Shyamalan nunca é raso.” De fato, ele nunca o é. Eis que, então, surge a sua grande obra-prima, A Vila (resenhado por mim no Assista! ontem mesmo). Uma produção tão poderosa, na qual há tanta profundidade e assuntos a serem discutidos que eu seria capaz de fazer não um, mas uma série de textos somente sobre ela.

E, então, como é comum a todo e qualquer artista, há sempre o momento de crise. Night atravessa um longo período de péssimas produções: A Dama na Água, Fim dos Tempos, O Último Mestre do Ar e Depois da Terra. Uma coisa ou outra legal em alguns desses títulos, mas quase a totalidade completamente dispensável. Durante esses anos, assim que um novo filme era anunciado, o medo batia. Uma expectativa, no entanto, era mantida: é impossível que alguém que filme tão bem quanto ele pudesse ter esquecido, pudesse ter se perdido para sempre. Então, A Visita aparece. Um filme delicioso e com os principais elementos da identidade de Shyamalan. Será que ele havia voltado? Só o tempo poderia dizer.

Kevin sendo analisado

Fragmentado emerge, em meio a esse contexto. Um trailer inspirador, apresentando uma premissa excelente: três garotas são sequestradas por Kevin (em excelente atuação de James McAvoy), um homem com 23 personalidades, fazendo-o passar por alterações físicas e psicológicas. Elas precisam descobrir a saída do cativeiro, antes que algo aconteça: a aparição da 24ª brutal personalidade. Mas será que o filme consegue sustentar o gosto adocicado proporcionado pela propaganda?

Shyamalan volta com os principais elementos de sua identidade presentes nas quatro primeiras e melhores obras: o suspense constante, um trauma a ser superado e o uso de flashbacks apresentados aos poucos (quando juntos, fazendo o sentido completo da obra). Nisso, poucos fazem como ele. É de uma precisão e habilidade inacreditáveis o que Night consegue com essa estrutura. Cortar na hora certa e voltar no timing perfeito, engolindo o espectador para dentro do filme. Nessa obra, acompanhamos dois núcleos de personagens: as meninas sequestradas, sendo uma delas a principal (Casey, interpretada com firmeza por Anya Taylor-Joy), em detrimento das outras duas; e Kevin, o homem que passa pelas transformações internas.

Como de costume nas obras do diretor que envolvem antagonistas, ele dá a possibilidade destes de serem conhecidos. Ele foge ao padrão americano de que o vilão não tem profundidade e é ruim por natureza. Sabemos muito sobre Mr. Glass, em O Corpo Fechado, assim como sabemos o suficiente sobre Kevin, nesta nova produção. Ele é analisado por sua psiquiatra, ao passo que Casey é autoanalisada durante esta situação de estresse. Estamos muito próximos de ambos os personagens: conhecemos os seus medos e desejos; vislumbramos suas possíveis saídas e prisões. Vemos – também como na outra obra – como é tênue a linha que separa o herói do vilão; ou que, na verdade, ambos são demasiado humanos. Para além disso, percebemos como histórias e experiências semelhantes podem gerar resultados completamente distantes; como algo destrutivo pode ser uma força construtiva.

Casey e Kevin, dois estranhos semelhantes

Um filme que poderia, muito bem, incorrer em um lugar-comum, passa longe disso. Com narrativa sob controle, direção firme e a sensação constante de que M. Night Shyamalan está fazendo aquilo que mais sabe, o resultado não poderia ser outro que não mais uma excelente obra do mestre do suspense no século XXI. Assim como com Casey – e Kevin, talvez –, Shyamalan saiu mais forte de seu período destrutivo. Pude respirar aliviado e dizer, com certeza, que agora, definitivamente, Night voltou. Não à toa, ele, que costuma homenagear três filmes que o inspiraram em cada produção, conclui esta com uma auto-homenagem: um easter egg – devo dizer, perdoem-me os exageros – nada menos que brilhante, fazendo-me imaginar, desde já, qual será o plot de seu próximo filme. E que obra fantástica seria!

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