A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

Esses são os primeiros versos de “A noite dissolve os homens, poema no qual Carlos Drummond de Andrade encara os horrores que a Segunda Guerra Mundial cravou no coração da humanidade. Estas palavras se ajustam bem ao novo filme do brilhante François Ozon, Frantz, remake de “Não Matarás“, de 1932.

A guerra em questão não é a Segunda, mas a sua predecessora. Em uma pequena cidade alemã, uma família convive com a perda de seu filho único no conflito, Frantz (ao qual só temos acesso em flashbacks). A jovem noiva do rapaz, alçada agora à condição de viúva – ainda que solteira -, Ana (Paula Beer – guardem este nome!), vive com seus enlutados sogros. Toda a rotina da família muda quando um jovem e triste veterano francês chega à cidade e deposita flores no túmulo do soldado alemão. Adrien Rivoire (Pierre Niney) passa a ser o elefante rosa plantado no centro da sala, obrigando a todos a se confrontarem com as perdas que a guerra traz. Brilhantemente, Ozon nos lembra da conhecida frase de autoria desconhecida: “Em uma guerra, a primeira vítima é a verdade”.

O maior trunfo do filme está na maestria com a qual o roteiro se desenvolve. O forasteiro, ao mesmo tempo em que abre as feridas da perda de Frantz para seus pais e sua jovem noiva, traz alento através da memória que evoca. A química entre Ana e ele, a aproximação cada vez maior com a família do morto, tudo isso é sacudido quando o espectador descobre que as coisas não são exatamente como se imagina. A mão precisa do diretor, em uma empreitada bem diferente de todos os seus trabalhos anteriores, mais delicada, algo não visto mesmo em seus outros filmes, leva a plateia a questionar os limites entre verdade e criação, culpa e afeto, valores e felicidade. É denso, é forte, mas, acima de tudo, é uma produção bela, com uma suavidade que pesa. É François Ozon na sua melhor forma.

A dupla de protagonistas, os jovens atores Paula Beer e Pierre Niney, é simplesmente impecável. Ela é a síntese de como uma atriz incorpora (aqui em seu sentido etimológico, “trazer para dentro do corpo”) uma personagem. Ela é Anna. Ele expõe todas as camadas de complexidade de Adrien, os conflitos, a dor, apenas através de uma contenção de gestos que explodem todos os sentimentos nos olhos. Deveria haver uma categoria “atuação de olho” e Monsieur Niney seria o seu verbete na Wikipedia. Impecáveis, repito. Além disso ainda transitam formidavelmente entre o alemão e o francês.

Um outro ponto no qual Frantz poderia servir de modelo para um verbete seria o da definição do papel da fotografia em um filme. O trabalho de Pascal Marti consegue inovar na forma mais tradicional do cinema: a fotografia em preto-e-branco. Beira à filosofia a sacada genial de representar em preto e branco o presente do pós-guerra, fazendo com que as cores só apareçam nas lembranças (?), e quando as personagens se deixam levar por sentimentos esquecidos por culpa da dor. É lindo de se ver. Tudo isso apoiado em uma trilha sonora não-invasiva, que não usa o artifício do barato para emocionar, e uma direção de arte e figurinos extremamente bem posicionados.

François Ozon não precisava, mas provou mais uma vez o porquê de se rum dos cineastas mais celebrados em nossos tempos. Frantz é cinema em estado puro, profundo sem ser pedante, tocante sem ser meloso, simples sem deixar de ser complexo. E, no fim, leva-nos a questionar até mesmo o poder libertador da verdade, pois, quando se trata de humanos, nada é tão definitivo assim. E deixa também uma notinha bonita de esperança, de vontade de vencer a escuridão da guerra. De despertar a aurora que fecha o poema de Drummond:

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.

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