Spoilers! Muitos e muitos spoilers daqui para frente e eu queria que isso aqui tivesse áudio para eu poder dizer “continue lendo por sua própria conta e risco” na voz do Silvio Santos.


Bom, acho que já podemos dizer com bastante segurança que Game of Thrones virou uma grande e interminável partida de RPG e, PUTA QUE ME O PARIU, como isso é excelente, ainda que o roteiro sofra. Em um episódio sem o menor compromisso com tempo, distâncias e temperaturas corporais, tivemos dragões, zumbis, espadas flamejantes, mais zumbis, Arya, o Rei da Night e um dragão zumbi. Nem tanta coisa aconteceu, mas foi um episódio longo, de 1 hora e 10 minutos de duração, e que se manteve fiel ao seu título, já que passou quase que todo além da muralha. Sem maiores delongas, vamos à resenha.

No episódio anterior, Jon Snow juntou uma galerinha do barulho para aprontar todas do outro lado da muralha e capturar um zumbi. O objetivo era levar esse bicho em uma turnê pelos sete reinos e mostrar que a Dona Formiguinha tinha razão ao dizer que inverno estava chegando. A quest é iniciada com uma belíssima cena em que aquela mesa/mapa de war em Pedra do Dragão dá lugar a uma panorâmica da sociedade do anel que se formou com Snow, Jorah, Clegane, Thoros, Beric, Gendry e uns figurantes que imediatamente já sabíamos que não sairiam vivos dessa. 

Aí se inicia uma resenha interminável entre os caras. Gendry está puto porque Beric e Thoros o venderam para Melisandre para ser sacrificado (o que realmente é o maior vacilo). O Cão chama todo mundo de cunt e a tradução da legenda para “imbecil” realmente não condiz com o rosnado que é o som desta palavra em sua boca e tampouco com o que ela quer dizer. Tormund deixa claro para Gendry que além da muralha ninguém é de ninguém e identidade de gênero sequer é uma questão. Jon está convicto que precisa ser o sujeito mais otário e fofinho de toda Westeros ao oferecer a sua espada – QUE MATA WHITE WALKERS – a Jorah, já que quem havia lhe presenteado a lâmina fora o pai de Jorah, e Jon, esquecendo-se que a espada não passou para Jorah porque ele desonrou a família ao se tornar um traficante de escravos, caga na vontade do velhote. Felizmente, o poder da friendzone regenerou Jorah e ele, sensatamente, recusa a espada.

Sabe onde você pode enfiar isso, Snow?

Beric entra numas de ficar falando do deus dele lá e tal. O Cão manda ele tomar no meio da bissetriz do olho do c* dele, mas Jon, o magnânimo, dá ouvidos à testemunha do Senhor da Luz. Enfim, é nesse rame-rame que o roteiro vai desenvolvendo um pouquinho mais de cada personagem até que um urso-zumbi-do-olho-azul aparece, mata metade dos figurantes descartáveis já aqui referidos e fere Thoros. Caso vocês não se lembrem, Thoros é o cara que usa o poder do tal Senhor da Luz (chamado de R’hllorr nos livros, mas cujo nome sequer é referenciado na série porque literalmente nem o George Martin sabe dizer como se pronuncia essa desgraça) para ressuscitar os parças.

Mesmo tendo quase sido morto por um zumburso (sim, eu fiz isso), Thoros continua tomando sua birita e jogando conversa fora com Jorah. É aquela resenha malemolente da galera que se junta para fazer uma trilha, tomar um gelobol, ser quase morta por zumbursos (fiz de novo) e finalmente emboscar um grupo de zumbis liderados por um White Walker diferentão, que anda desgarrado da galera porque gosta de The Smiths e Radiohead.

Thoros participa da emboscada e, após Jon matar o Emo Walker, os zumbis todos caem no chão, em uma página tirada diretamente da mitologia de Garotos Perdidos, um dos melhores filmes merda de todos os tempos. Um dos zumbis, inexplicavelmente, continua “vivo”, mas, antes de ser capturado e calado, ele solta um grito e aí, amigo, a porra fica séria.

Uma tempestade se forma no horizonte, os esfíncteres de todos se contraem como gongolos com frio e aqui começa a ficar evidente a relação difícil dos roteiristas de Game of Thrones com conceitos básicos como espaço e tempo.

Jon imediatamente manda Gendry correr de volta para Atalaialeste no meio de uma nevasca. Jon julgou que esse rapaz, que minutos antes dissera que nunca sequer havia visto neve na vida, seria o mais rápido dentre eles sabe-se lá o porquê. Enquanto isso, o que restava da sociedade do anel e a outra metade dos figurantes corre da horda de zumbis que se aproxima. Convenientemente, havia um lago semi congelado no caminho deles e, ainda mais convenientemente, uma ilha no meio desse lago. Evidentemente, a legião de zumbis racha o gelo do lago e não consegue chegar a Jon e seus amiguinhos, que ficam ilhados. A única esperança deles agora é que Gendry consiga chegar à Atalaialeste e enviar um corvo a Dany.

Neste meio tempo, o Rei das Nights aparece ao longe e Beric, julgando-se o escolhido fodão só porque foi ressuscitado 6 vezes, acha que tem alguma chance de partir pra cima de Renight e acabar com aquilo tudo. O Rei da Noite só olha, esperando até que o lago congele novamente.

Mesmo que a impressão seja a de que eles andaram por dias, parece que eles só foram ali na esquina comprar um pão, já que Gendry chega ainda no mesmo dia a Atalaialeste e o corvo é enviado à Khaleesi, chegando a ela em questão de segundos, ao que ela, contrariando os conselhos de Tyrion, sobe num dragão e vai ao resgate da turminha.

No que parece ser a manhã seguinte, Thoros não resiste ao frio e a seus ferimentos e morre. O Cão está se divertindo ao jogar pedras na cabeça dos zumbis que estão longe demais para qualquer ser humano alcançar com um arremesso. Mas esse artifício funciona muito bem para o roteiro, pois é exatamente quando o cão erra um dos arremessos que os zumbis percebem que o lago já voltou a congelar e partem pra cima. É então que a porrada estanca e temos ai uns bons 10 minutos de violência desmedida contra zumbis.

Infelizmente, à exceção de algumas poucas tomadas do Cão usando o martelo de Gendry, temos aqui uma sucessão de clichês de filmes de ação. É um tal de duzentos zumbis fortemente armados e montados em cima de Tormund sem que consigam feri-lo, o esqueminha do sujeito caindo de um lugar alto e sendo salvo na última hora por uma mão amiga e, ainda, a outra metade dos figurantes morrendo bizarramente enquanto que os personagens principais vão embora praticamente ilesos.

No departamento de clichê, temos ainda duas oportunidades em que a lavoura é salva no último segundo. A primeira é que Daenerys, valendo-se do Fast Travel em plena Westeros, aparece com seus dragões no último segundo, salvando todo mundo. A segunda é quando o esquecido Tio Benjen (aquele irmão do Ned Stark que era da Patrulha da Noite e depois virou uma espécie de zumbi do bem) aparece do mais absoluto nada para salvar Jon, em mais uma participação deus ex machina do tiozão.

Nada disso importa, contudo. O que importa é que Dany chega na última hora, incinera zumbi pra dedéu e Renight consegue matar um dos dragões – Viserion – com sua lança de gelo boladona em uma cena nada menos que espetacular!

Depois de conseguir aterrissar na tal ilha e assistir a morte de um dos seus filhos muito por culpa do complexo de herói cabaço de Jon Snow, Dany foge com todo mundo menos Jon. Drogon contraria o que acontecera no 4º episódio ao facilmente se evadir da lança do Rei da Noite ao invés de voar em direção a ela como um mané. Jon cai no lago semi congelado e lá fica por tempo o suficiente para que os zumbis se dispersem e qualquer ser humano morra afogado e de hipotermia, mas ele reaparece, consegue sair da água e se prepara novamente para lutar contra a horda, tudo como se andar por aí molhado em temperaturas muito abaixo de zero fosse tranquilo. É então que titio aparece e salva o dia.

É claro que Jon sobrevive e consegue chegar a Atalaialeste que, afinal de contas, estava logo ali na esquina. Já recuperado, Jon chama a rainha de Dany e ela cora como uma garotinha. A escola de incesto Jaime Lannister está aí formando seus alunos ao que parece. Jon, talvez consumido pela culpa da morte de um dos filhos da dragoa (e cagando para a dos figurantes e Thoros), finalmente dobra seu joelho e Dany, tendo visto o ocorrido, finalmente acredita que agora realmente fodeu e assim acaba o episódio.

No mais, tivemos algumas cenas bobas em que Arya ameaça matar Sansa, que ameaça matá-la de volta, é manipulada por Mindinho e, no final, recebe de Arya a tal adaga que fora usada para se tentar matar Bran ainda na 1a temporada. Desconfio que Arya, comprovando ser um dos personagens com uma curva de desenvolvimento das mais fascinantes desta série, tenha dado um recado simples para sua irmã: mate Mindinho.

Além dessa historinha paralela de duas irmãs, houve também uma cena em que Tyrion, após shippar forte o casal Dany e Jon, tentou fazer a rainha ouvir seus conselhos. A Khaleesi, contudo, estava mais preocupada em rebater todo argumento dele com um ataque a sua pessoa, o que não é muito difícil quando se trata de um anão que matou a mãe ao no parto, o pai no trono e cujos irmãos se comem.

Miga, sua louca, ele é seu sobrinho!

Este foi um episódio que tinha uma ambição clara de ser o mais grandioso e épico da temporada e, nisso, ele falhou miseravelmente, com o 4º episódio e sua batalha ainda figurando como o melhor da temporada. Apesar dos imensos furos de roteiro e da total falta de compromisso com as leis da física, este episódio teve de positivo algumas boas cenas de ação e aventura, o Cão ensinando para Tormund que pau é um outro nome para o pinto, Tormund declarando seu amor eterno por Brienne e, PUTA QUE ME O PARIU NOVAMENTE, um dragão zumbi, o que, apesar de ser realmente fantástico, meio que se percebeu que aconteceria assim que ele morreu. A propósito, de onde caralhos aqueles zumbis tiraram correntes de metal gigantes como aquelas?

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