Aproveitando a semana da grande e esperada estréia de Alien: Covenant, o MetaFictions fará uma publicação, a cada dia (até a chegada do filme nas telas), de algo relacionado ao universo alienígena no Cinema: o presente Garimpo, um especial Alien (escrito por Ryan Fields, o especialista eventualmente abduzido) e uma lista de Top 10 Filmes de Aliens. Não precisei pensar muito para decidir sobre qual faria. Visitei, mais uma vez, um dos meus locais preferidos de produção cinematográfica no mundo e de lá tirei aquele que considero uma obra-prima da diversão no século XXI, um título que me causou sensações mais maravilhosas do que as aventuras narradas em Goonies (com o agravante que eu não sou mais nenhum menininho que se surpreende com qualquer coisa): o britânico Ataque ao Prédio (Attack the Block), de 2011.

A primeira cena do filme é o céu escuro e estrelado, tal qual vemos em qualquer Star Wars (aliás, seria uma profecia desta realização? Daqui saiu a grande revelação, o fantástico ator John Boyega, que, anos mais tarde, faria o filão bilionário sobre jedi em galáxias distantes), mas, ao invés de letras subindo, vemos algo como um asteroide descendo, em meio a fogos de artifício com efeitos semelhantes na paisagem noturna. Embaixo, o planeta Terra. Mas não uma base militar; não uma estação de lançamento de satélites espaciais. Não. Embaixo, as ruas de Brixton, um distrito multiétnico de Londres, onde mora parte da classe operária da capital inglesa.

“This is our block!”

Logo ali, uma mulher branca (Sam, muito segura na atuação de Jodie Whittaker), chegando à sua habitação (um daqueles piranhões com mais de 160 apartamentos, o Block do título), é abordada por uma gangue de menores infratores, composta por um branco e os demais negros. Eles roubam tudo o que ela tem quando, repentinamente, aquele objeto similar aos fogos de artifício atinge explosivamente o teto de um carro. A desordem momentânea é a chance de sua fuga e os garotos, sedentos por aventura, exploram o automóvel atingido. De dentro dele, um vulto veloz sai correndo, machucando nosso personagem principal: Moses (interpretado de forma exuberante pelo já aludido – e aí, eu repito – fantástico John Boyega). Ele é aquele líder típico bad ass e, portanto, não aceita os arranhões em sua cara promovidos pelo ataque daquilo que eles sequer identificaram o que era. Então, a gangue corre para o local escuro para onde a criatura fugiu. De lá, Moses sai ostentando o corpo sem vida do ser. Mas o que era ele? “Um macaco”, “um cachorro”, eles se perguntam. Mas o palpite mais acertado seria do membro mais chapado de maconha de todo o bando: “é um alienígena!”, lança Pest (atuado com timing perfeito por Alex Esmail). E, assim, começa a peculiar e apaixonante história de uma invasão alienígena por um bando de “some alien-gorila-wolf-motherfucker” (alguns aliens-gorilas-lobos-félas-das-p***ta, na tradução livre), em um piranhão de Brixton.

O que em um filme americano movimentaria nações na luta maniqueísta dos homens bons versus criaturas super-evoluídas, porém ultra-beligerantes, aqui motiva uma gangue de pivetes (vistos por parte da sociedade como monstros) contra monstros pretos (“mais pretos que meu primo Femi”) do espaço sideral, envolvendo a polícia (vista como monstros por nosso grupo de protagonistas e quem é do seu tipo) que, atordoada, não sabe a quem perseguir. Junto ao nosso grupo, nessa luta pela sobrevivência, vem Sam, a tal mulher que foi roubada pelos próprios durante a primeira sequência da obra. E é exatamente nisso que reside toda a maravilha do longa de Joe Cornish (em seu primeiro longa para os cinemas; também conhecido por ser um dos roteiristas de Homem-Formiga).

Moses e some alien-gorila-wolf-motherfucker.

O desenrolar da narrativa é super divertido e, para além disso, traz belas considerações sociais, enquanto, constantemente, somos desafiados em nosso modo de ver as coisas. Aliás, não se esqueça que, durante toda a campanha, estamos torcendo para um bando de “trombadinhas”. Mesmo em um filme assim, Joe nos testa, fazendo-nos repensar várias questões sérias do nosso cotidiano, quando entramos na casa de Moses e descobrimos quem ele é, vendo-o através da sua casca de gangster-wannabe.

Diálogos que poderiam ser simples quebram a banalidade quando também duelam com nossas percepções. “Onde está o seu namorado, que não a está protegendo agora?”, pergunta Pest para Sam. “Ele está em Gana”. “Oh, você namora um africano?”. “Não, ele ajuda as crianças. É voluntário da Cruz Vermelha”. “Sério? Por que ele não ajuda as crianças da Grã-Bretanha?”, acerta brilhantemente o “emaconhado” em um touché primoroso. Elementos desse tipo fazem do primeiro longa de Cornish algo muito mais do que uma mera diversão ou uma visão maniqueísta da vida. As coisas aqui não são pretas e brancas, mas há todo um degradê cinza para ser avaliado.

“E então? Quem são os monstros? Todos? Nenhum?”

Pela belíssima direção, pelas atuações fantásticas, pelo roteiro impecável (também escrito por ele), eu digo sem qualquer ressalva ou medo que o filme trata-se do mais divertido entre todos os produzidos neste século recente. Como disse durante o presente texto, além da sedutora jornada de uma gangue britânica atrás de uns monstros estranhos de outra galáxia e a tentativa pessoal de redenção de Moses, Attack the Block nos coloca de frente para alguns assuntos dos mais importantes em nosso dia-a-dia. Bom ou ruim (ou ambos a um só tempo, como, de fato, é a natureza humana), viva o nosso herói Moses!

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