Tarde da noite e eu procurava por um filme para o qual me entregar e, num ato beirando o masoquismo, estava disposta a sofrer ou chorar bastante. Tenho minhas teorias que o cinema extravasa e conforta quando nos parece impossível falar ou dormir. Eis que surge uma indicação pra Blue Jay, a qual, para ser sincera, desprezei. Eu li a sinopse e fiquei – patética que sou por vezes – com certo receio de me doer muito. Depois, cedi. Acho que valeu o corte.

Blue Jay é um convite à memórias. Talvez não suas – ou talvez rimem muito com as que tem -, mas memórias que se tornam compartilhadas e conectadas ao telespectador. A história de um casal que nos mostra costurados por lembranças adolescentes e que permeia por essa colcha de retalhos por uma hora e vinte cinco.

Amanda (Sarah Paulson) está de passagem na cidade em que cresceu e encontra seu amor de escola, Jim (Mark Duplass), por acaso. Senti que houve, ou ainda havia, sentimento entre os dois, através da constrangedora tensão construída na cena. A partir de uma narrativa orgânica e sincera, me senti parte da história, quase como que na sombra de um amor adolescente.

O filme foi lançado direta e exclusivamente no Netflix. E quando li a respeito descobri que ele não teve roteiro formal, só um de 10 páginas e de resto baseou-se em improvisação. O que o torna ainda mais especial e intimista, e explica o porquê de ter esse característico aspecto orgânico, tão próximo do real. Sem contar o fato de Mark Duplass ter atuado, escrito e produzido (!) o filme. Em entrevistas onde fala sobre ele, entendemos que a sinceridade do filme de baixo orçamento vem, além de toda essa caricata construção, de um devaneio autobiográfico de Duplass. Lindo.

Através de pequenos detalhes de intimidade, como um apelido, jeito de sorrir ou mania, é visto que a relação de certa forma resistiu, apesar de repousar sobre os destroços do tempo e, imagino eu, mágoas. Resistiu e adormecia – mas desperta moldada pelo presente. “É como uma cápsula do tempo.” E, como tal, entra em choque com o mundo de agora.

O filme perpassa sentimentos melancólicos, puros, de tristeza, arrependimento e também de uma infantil e gostosa felicidade. É uma minuciosa viagem pelas escolhas que ambos não fizeram e que ali podem criar um momentâneo universo paralelo de “e se”s.  Acredito ser um ensaio, até certo ponto, de “não-ditos”. Os personagens tentam filtrar o que estão prestes a dizer, como quem pisa em ovos, e suas bocas balbuciam meio medrosas. E então esses pensamentos se escalonam até cruzar abruptamente a linha do imaginário.

Ao final, senti um pouco do convidativo transe à uma viagem no tempo. Absorvi melancolia e tristeza para depois diluí-las em conforto e um suspiro conformista. Perdoem-me, desde já, pela linha derradeira de spoiler a seguir: Amanda não chorava há cinco anos. E eu há algumas semanas. Blue Jay é capaz de mudar algumas lacunas temporais.

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