Quão longe você já foi pelo futebol? Quais loucuras ou sacrifícios já te colocaram à prova? Em quantas discussões, brigas, conflitos de abalar relações você já se meteu? Eu mesmo tenho algumas histórias. Simples, mas são histórias. Já abandonei determinado período da faculdade quando, em 2006, a Copa do Mundo começara. Já me tranquei no banheiro do trabalho para assistir a EuroCopa pelo celular. Já faltei nele também, única e exclusivamente para ver a minha Nazionale treinar em São Januário, em um amistoso contra o Haiti. Já quase vomitei de nervoso, quando Francesco Totti (o maior de todos! Er Capitano!) se preparava para cobrar o penalti que garantiria a classificação da Itália contra a Austrália, aos 93″ de um jogo tenso, no qual tínhamos um a menos, naquele mesmo ano. Já hostilizei uma dúzia de amigos, ao ser zoado acerca das eliminações da minha seleção. Já gritei, soquei parede, xinguei. Mas nada disso é incomum. Não, são apenas características de todo e qualquer fanático por futebol, nos quatro cantos do planeta. Aqui, independente de gênero, costume, cultura, todos são iguais. Todos se unem e, em uníssono, se prostram diante da mais fantástica apresentação esportiva que a Humanidade já terá conhecido, um dia. Era uma vez o futebol…

Inspirado pela estréia do campeonato nacional ocorrido na corrente semana, o MetaFictions preparou alguns especiais sobre essa paixão que nos move, a começar pelo presente Garimpo: um belíssimo filme do Irã, dirigido por um dos meus 10 diretores preferidos no século XXI (o que é comprovado pelo meu voto na lista dos melhores diretores em atividade). O super premiado e genial Jafar Panahi. Lançado no mesmo ano da Copa de 2006, e tendo como pano de fundo este evento – ou o momento que o precede, melhor dizendo -, o cineasta presenteia o mundo com Fora do Jogo (Offside, em seu título original; que, aliás, a tradução deveria ter ido ao pé da letra e colocado o título como Impedimento).

A seleção Iraniana precisa de um 0 x 0 para se classificar e disputar o mundial da Alemanha. O jogo será contra o Bahrein e isso movimenta toda a sociedade local. A primeira cena do filme já nos contextualiza acerca de seu conflito e do que se sucederá. Um homem velho, em um táxi (ou algo que o valha), pede ao motorista que siga um ônibus a transportar torcedores para o estádio. Ele está à procura de sua filha que, escondida, saiu da escola e foi para o jogo.

Até aqui algum problema?

Nenhum!

Nenhum, se você mora no Ocidente. Acontece que a história se passa no Irã, país muçulmano, de cultura completamente distinta da nossa, no qual a mulher não pode frequentar certos espaços, sendo um deles – é claro – o templo sagrado do futebol. Mesmo com tudo contra ela, a menina (delicadamente interpretada por Sima Mobarak-Shahi) segue em sua perigosa aventura pessoal, para ter o prazer de ouvir o apito e ver a bola rolar; sentir o calor humano e gritar, em deleite, uma imaginada vitória.

Foguetes e bandeiras.

Dentro do ônibus, a caminho do estádio, alguns torcedores notam que, mesmo disfarçada, trata-se de uma menina. Eles ficam pasmos com a situação, mas não contam para ninguém, já que partilham do mesmo amor. As sequências que seguem são exatamente a tentativa dela – e outras que surgem ao longo da narrativa – de ver o jogo. Tentar driblar as constantes proibições; sair do impedimento. “Mas porque eu não posso?”, se pergunta ela. “Há muitos homens para vocês sentarem juntas, e eles hostilizam o tempo todo; não é um ambiente digno para mulheres”. “Mas no cinema, nós sentamos ao lado de homens e, ainda por cima, está escuro”. Questionamentos para os quais não há resposta.

Neste filme, as personagens não têm nomes. Isto porque elas representam todo aquele grupo, à margem de tudo, devido a cultura que as subjuga. Não estou a dizer se é bom ou ruim; não estou a lançar juízos de valor, como se a minha cultura fosse superior. Jamais. Estou apenas constatando que a mulher não pode, para eles, desempenhar um papel que não seja coadjuvante. Mas, para Jafar Panahi, especialmente nessa linda obra, elas são o personagem principal.

Apesar disso – apesar de tudo – aquela grade que as separava tanto do grupo dominante, quanto do objeto de maior desejo do dia, é quebrada sutilmente por esse mesmo objeto. Como disse na introdução: aqui, independente de gênero, costume, cultura, todos são iguais. Todos se unem e, em uníssono, se prostram diante da mais fantástica apresentação esportiva que a Humanidade já terá conhecido, um dia. É o futebol…

A grade ideológica.

E nada melhor do que a glória advinda dele para fazer todos esquecerem seus conflitos e diferenças. Dizem que o futebol é o ópio do povo. Se é mesmo, tudo o que quero é ser o maior viciado do planeta. Costumo dizer que se vivo, o faço porque daqui 4 anos há uma Copa do Mundo esperando. Louco de mim? Talvez. O fato é que, em determinado momento do filme, uma das personagens se lembra de um amigo, fanático por futebol, que morreu em um jogo contra o Japão (uma das 7 vítimas). E, para consolá-la, sua colega responde com determinada sensatez:

“Pense na Copa do Mundo”.

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