Dentre os pontuais questionamentos que carrego vida afora, aqui dentro o que me consome bastante tempo pensando são aqueles que cercam o amor. Desde sua exata definição, início, fim, intensidade… até ramificações como limites, potenciais e impactos. É possível que o amor verdadeiramente mude uma pessoa? É correto esperar isso dele? E por aí vão essas perguntas entre tantos devaneios quando o tempo me sobra…

Pode até ser que o amor não modifique em definitivo por onde passa, mas certamente tem poderes de curandeiro, o que acabei por descobrir quando procurava algum filme para ver no Netflix e me sugeriram o garimpo de hoje. “Hope” nos expõe à história de uma garotinha de 8 anos, Hope (Lee Re), que é brutalmente estuprada durante o caminho pra escola. É perturbador e doloroso cogitar essa situação, perversa e hedionda e confesso que, apesar do filme não explicitar o estupro, precisei pausar e respirar fundo quando pressenti que a cena estava por vir. Do ataque à chegada do hospital, o filme impiedosamente coloca o coração do telespectador numa maca junto com Hope. É cortante demais. Mas o que quero falar aqui é o quanto a mensagem do filme vai além (e muito!) de chocar o público com uma atrocidade dessas. O filme é bastante sobre amor e como sua existência supera obstáculos, dançando como água que corre entre as pedras pra finalmente desaguar.

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Os pais da menina são figuras de bom coração, mas que cometiam uns deslizes no quesito de atenção e da importância de estar ali pra sua filha. O que é perfeitamente compreensível, considerando uma rotina de trabalho corrida (mãe) e de… bem, o cara também ralava bastante mas era meio desleixado quando o assunto era esforços paternos. O casal, então, enfrenta a situação mais difícil de suas vidas: sua única filha foi dilacerada, psicológica e fisicamente, e o trauma afeta diversas áreas da sua vida de maneira permanente. Hope precisa de cuidados nem sempre intuitivos – a menina precisa lidar com o trauma e com o fato de que seu corpo, violado, carregará marcas para o resto da vida. 

E é na recuperação da garota que o filme foca e decola leve, apesar das circunstâncias. Um belíssimo voô. O pai, a figura que descrevi como sem jeito, começa a ir atrás do tempo perdido com a filha e a conhecer seu mundo melhor. Ele se imerge em desenhos, brinquedos e programas de TV preferidos pra que possa se reaproximar dela, que desenvolveu aversão a contato com homens. O pai se vê ilhado pela própria filha, devido ao trauma, e começa a fazer de tudo para restabelecer o vínculo paternal e dar à sua filha a segurança que lhe é necessária. O filme é extremamente meticuloso e sensível no desenrolar dessa missão, trazendo um olhar de cuidado e carinho que só o amor genuíno pode conceder. É de confortar o coração.

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Além da melhora da menina, é colocado em pauta também a forma que os pais lidam com o acontecido enquanto adultos. Imagino que a sensação de culpa, misto de impotência, revolta e desespero, seja algo dificílimo de digerir e lidar nas cabeças de um pai e de uma mãe nessa situação. A família como um todo começa a se aproximar mais, integrar e reerguer. É como se aquela situação levasse a um aperfeiçoamento de superfícies mal cimentadas no relacionamento entre todos ali.

“A pessoa mais triste tem o sorriso mais brilhante porque ela não quer que os outros sintam a mesma dor.” Apesar das dores, a gente sorri pra quem se ama e quer fazê-los felizes – mesmo que não façamos IDEIA, por vezes, de onde tirar força pra produzir essa felicidade. Por fim, talvez o amor não transcenda à uma definitiva mudança – mudar as coisas, as pessoas. Não há como, por exemplo, mudar o que acontecera com Hope. Não há como mudar o fato de que um absurdo desses rondaria a cabeça de Hope por muito tempo. Contudo, é inegável que o amor afaga e faz curativos. Evita que infeccione. Cuida. Eu não sei se algum dia vou chegar à conclusão sobre a mutabilidade das coisas e pessoas em função do amor. Mas, tem algo que é muito certo e que “Hope” legitima: o quanto o amor é capaz de fazer florescer.

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