Oblivion” é uma das minhas palavras preferidas em inglês, dentre outras tantas como “jeopardise”, “omen” e “utter” – nenhuma com conexão, aliás. No geral, a sonoridade nas palavras é o que me encanta, por isso elas vão desde as mais reles até as mais obsoletas, arcaicas. Não é sempre que considero seus significados pra minha predileção. No caso de “oblivion”, que significa algo como esquecimento só que mais poético (pelo menos pra mim), existe um sentimento dual: sua sonoridade me atrai e seu significado é um de meus maiores temores. Cair no esquecimento – no seu próprio ou no de alguém – é algo que me assombra, como por exemplo esquecer minhas memórias mais íntimas, importantes e/ou gostosas. Não à toa sou a rainha das listas (vocês não fazem ideia)… eu tenho muito medo de esquecer então tento ser meticulosa. Elas se tornaram um porto seguro e não só uma forma de organização (bem do tipo obsessiva). Tenho listas de amores, risadas, poesias e filmes; não me limito àquelas que dizem o que fazer no dia.

Por conta disso, filmes que tateiem, tanjam ou imerjam na temática do esquecimento me saltam aos olhos. Em “Longe dela” acompanhamos a forma que Grant (Gordon Pinsent) tenta lidar com o desenvolvimento da doença de Alzheimer de sua esposa, Fiona (Julie Christie). É o típico casal de velhinhos super fofo e que, por alguns segundos, independentemente de suas aspirações pro futuro, você quer ser quando envelhecer. A rotina do casal, ainda que adaptada à idade madura, quebra o estereótipo mal contado de que ser velho é ser chato e sem graça. Fiona é sarcástica, ativa e inteligente; Grant é sábio, carinhoso e também irônico. Os dois formam o semblante do amor que deu certo.

“Ela disse… ‘não seria legal se a gente casasse?!’ e eu aceitei. Eu nunca queria ficar longe dela. Ela era cheia de vida.”

O filme então é conduzido a partir da unânime decisão, pelo fato da degeneração da doença começar a acelerar, de que é melhor para os dois que Fiona fique numa clínica de tratamento. Como o longa faz questão de deixar claro, o casal tem uma belíssima sintonia e a comunicação é a principal chave no consolidado relacionamento de 44 anos dos dois. Por conta disso, apesar de dolorosa, a decisão passa por delicadas conversas onde os dois, com um ar de lucidez invejável apesar das circunstâncias, optam pela ida de Fiona.

O distanciamento é cruel e dá aperto no peito mas, por vezes, é realmente necessário. Seja na situação do filme ou em qualquer outra. Ainda mais quando há amor envolvido. Durante todo o filme permaneci de corpo atado aos tantos sentimentos que me percorriam a derme. De um lado, a empatia para com Grant pela questão da perversidade do Alzheimer, conhecida por mim através de minha avózinha e temida por isso e outras coisas. De outro, a compreensão para a problemática do afastamento, a intensa saudade, necessidade, genuíno afeto e amor por outra pessoa.

A diretora do filme, Sarah Polley, adora dissecar relacionamentos em suas obras e deixa isso claro nesse filme e em outros como “Entre o Amor e a Paixão” (horrorosamente traduzido, sendo original “Take this Waltz“, poética referência à música de Leonard Cohen). Sendo também a roteirista da produção, Sarah é impecável ao escrever os diálogos, que passam longe do pomposo e se atêm ao sensível e cru, transcrevendo o que o corpo e a cabeça daquele homem sente e pensa. O apagamento da memória é seletivo no Alzheimer, o que é motivo para que as pessoas próximas tenham reacesa a esperança de que tudo volte como era ou estacione aonde está – e Grant é fisgado por essa armadilha. Além disso, os sentimentos, sustentados em muito pelo tempo e memória, podem ser confundidos, transferidos e, por consequência do quadro, até recriados – e é isso que Fiona vive. Grant vê sua esposa esquecendo-o e deixando-o para trás e não tem escolha que não articular para que a felicidade dela seja seu conforto.

Então é inserida a prerrogativa do amor genuíno. Não é isso mesmo que, afinal de contas, desejamos para quem amamos? Apesar dos egoísmos da carne e ego e das inúmeras idealizações que todos carregamos? Todos queremos que o ser amado seja feliz – a parte que geralmente nos dói é aceitar que isso pode acontecer sem que façamos parte dessa felicidade e até concomitante à nossa tristeza pela distância. É muito bonito o discurso de que o amor deve ser sempre filantrópico mas na verdade a gente quer viver amando e sendo amado, feliz e fazendo feliz.

Assim como outras artes, o Cinema traz memórias. Assistindo ao longa pela segunda vez fui tomada pelo misto de sentimentos doces e melancólicos. Seja pela sua temática ou pela palatável sensação que remete à primeira que vez que o assisti há quase um ano, é um filme que me consome, alivia e aquece minhas memórias muito bem guardadas (ufa). “Longe Dela” nos mostra um amor que transcende o apego, egoísmo e dor – sem nunca deixar a palpabilidade humana de mostrar que isso tudo não é nada fácil.

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