O Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir os anteriores.


O ser humano, em sua longa e patética existência, a todo momento – seja ele qual for – tenta encontrar argumentos ou situações que lhe dê a comprovação de que é um ser evoluído comparativamente aos demais. Detentor de um ego supremo, vê-se como deus de carne, criando ilusões de super poderes que possam enganá-lo de forma a endossar o leviano pensamento soberbo de que a ele cabem todas as coisas; estas como se no papel de serventes.

Mas isso denota e evidencia sobretudo sua insegurança e particular pequenez diante de um Universo que se assume infinito. Desnudando-o dessas fantasias egocêntricas, o que sobra do homem nada mais é do que os mesmos elementos constituidores de todo e qualquer animal. Coloque-o em uma situação de extremo perigo e ele agirá como um gambá assustado ou uma aranha nervosa. Quando da busca por sua sobrevivência, todo ser vivo é reduzido ao mesmo patamar que os tira arbitrariamente de uma suposta cadeia de evolução.

Garimpo Netflix de hoje traz três títulos que atravessam, ainda que de forma bastante distinta, o tema da sobrevivência… ou a plena noção de que o ser humano não é nada além de uma sombra errante.


Uma Noite de Crime (The Purge), de 2013, dirigido por James DeMonaco

Estamos a contemplar a civilização em colapso. Assistir à televisão ou folhear um jornal; passar os olhos pela web; tudo se tornou uma ação quase que rejeitada por impulso. Nada além de catástrofes e destruição promovidas entre iguais. O íntimo contato com tamanha perversidade conforta tão somente mentes psicóticas, que se alimentam do medo gerado nos indivíduos. Mas o que estamos a contemplar, de fato, é a libertação de psicopatas travestidos de homens bons da sociedade. O ódio maquiado em palavras difere muito pouco daquele encarnado em gestos e realizações.

Uma Noite de Crime resolve colocar em prática o que ouvimos falar diariamente. Objetivando diminuir a criminalidade do país, o Estado admite, por 12 horas ininterruptas ao ano, liberdade total para os indivíduos. Dessa forma, grupos saem nas ruas para destruir vidas e construções. Essa iniciativa permitiu que estatísticas criminosas no restante dos meses diminuíssem vertiginosamente. Aos mais ricos, que não optam por participar de massacres particulares, cabe a edificação de fortalezas pessoais. Aos mais pobres, a vulnerabilidade se acentua. A ambos, resta apenas lutar pela sobrevivência desse meio-dia de caos pensado e, agora, também praticado.

Como em um simples peteleco, James DeMonaco faz ruir a frágil construção social humana, que ainda se mantém de pé, balançando ferozmente ao menor sopro de um vento qualquer.

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