Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana 3 bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir os anteriores.


O que nos permite viver em sociedade, tentando minimamente, e da maneira mais frágil possível, minimizar o caos que advém da natureza humana é a existência do pacto social. A partir dele, definimos em conjunto (mas quase ninguém tendo poder de fala para esta definição) as regras básicas para a convivência em comunidade, de tal forma que a quebra da estrutura primordial seja passível de penalidades. Assim sendo, o medo de sofrer um desses castigos faz o ser humano tentar (apesar de muitas vezes não conseguir) andar na linha estreita orientada pela lei.

Mas para além da lei propriamente dita, há ainda aqueles modelos que, apesar de não juridicamente formalizados, funcionam como tal. Estude, trabalhe, case, monte uma família, compre uma casa, viaje. A menor sugestão fora desse padrão automaticamente coloca o indivíduo para fora do paradigma aceito e engessado para cada um de nós. Como se uma função algorítmica, somos criados a caminhar nessa programação pré-estabelecida que filtra nossas escolhas e controla o arbítrio.

Garimpo Netflix de hoje traz três filmes completamente diferentes entre si, mas que, de alguma forma, trazem um modelo de vida que se entende fora de padrões razoáveis previamente formalizados pela sociedade.


Assunto de Família (Manbiki kazoku), de 2018, dirigido por Hirokazu Koreeda

Hirokazu Koreeda é conhecido por sua sensibilidade e naturalismo na hora de filmar. Lembro-me ainda da primeira vez em que vi seu brilhante “Ninguém Pode Saber”, retratando uma forma de vida pouco trivial de algumas crianças. Em seu novo Assunto de Família, ele parece revisitar muitos dos territórios pelos quais passeou no título citado. Colocando-nos dentro de um núcleo familiar nada padronizado, seguimos a história dos Shibata, que tentam viver cada dia em meio aos seus trabalhos, pequenos furtos para prover a alimentação diária e a união noturna entre os familiares.

Esta família, porém, não compreende o padrão esperado que o conceito imediatamente sugere. Formada a partir do abandono, os membros se unem pelo sentimento que vão construindo entre si. Assim se constituindo, “adotam” (mas não na legalidade) uma pequena menina, Yuri, aparentemente destratada pelos seus progenitores. Em um ambiente pequeno e bagunçado, as relações emocionais vão se fazendo presentes e os sentimentos mais verdadeiros afloram e desabrocham.

Um conto simples, delicado e que questiona os verdadeiros e inquebráveis laços pessoais, uma poesia ímpar ritmada pelos seus silêncios, contemplações e gestos plenos em expressão. Vencedor da Palma de Ouro em 2018, essa obra figura no que de mais rico você poderá encontrar em todo o acervo da Netflix.

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