Uma das grandes vantagens da Netflix é a ausência de rabo preso com os grandes estúdios. Isso, aliado ao fato de que ela precisa atender aos mais variados nichos de mercado, acaba fazendo com que os produtores e idealizadores do conteúdo original Netflix tenham em geral carta branca para fazer o que quiserem. Em sua curta história, a Netflix veio apostando em produções pequenas, independentes, baratas e de cineastas criativos, mas com pouco nome no mercado ou iniciantes. Poucas eram as exceções à essa regra, como House of Cards. Contudo, com seu crescimento vertiginoso, a Netflix cada vez mais envereda pela produção do cinemão mesmo, com títulos como War Machine e Okja (ambos resenhados aqui e aqui), além de filmes de Scorsese e Soderbergh em franca produção.

Inclusive, o brilhante Joon-ho Bong, diretor de Okja, havia tentado fazer o filme anteriormente, mas só conseguiu fazê-lo pela Netflix, que injetou 50 milhões de dólares em sua produção sem meter o bedelho em absolutamente nada. Basicamente, deram um cheque na mão dele e fizeram com que ele prometesse entregar um filme. 

E isso permeia praticamente toda a produção original Netflix. Filmes, séries e especiais em geral autorais, sem compromisso com qualquer coisa que não com a integridade da obra. E isso se torna claro ao se assistir qualquer uma das três obras indicadas hoje. Temos hoje três comédias originais: um longa, uma série e um especial duplo de stand-up. Todos excelentes, todos autorais e todos imperdíveis.


Amizades Improváveis (The Fundamentals of Caring), de 2016, dirigido por Rob Burnett

Paul Rudd interpreta Ben, um homem amargurado por alguma coisa que aconteceu no passado do qual não consegue se desvencilhar. Em função disso, ele coloca sua carreira como escritor de lado e começa a trabalhar como cuidador profissional. Seu primeiro cliente é Trevor (Craig Roberts), um adolescente de seus 17 anos que sofre de Distrofia Muscular de Duchenne, uma doença incurável que relega quem dela sofre à cadeira de rodas até a morte, que costuma vir de complicações cardio-respiratórias por volta dos 19 anos. Só que Trevor não é seu típico cadeirante de filme de Hollywood. Ele é babaca, insuportável, cínico e usa sua deficiência para conseguir muitas das coisas que quer. Ao mesmo tempo, ele é brilhante e sensível como só uma pessoa que sofre das vicissitudes que ele sofre pode ser.

No longa, que recebeu grandes elogios por tratar a deficiência de forma real, delicada e desmistificadora, Ben e Trevor saem pelos Estados Unidos em busca das atrações turísticas mais escrotas do país – como o maior bovino e o maior buraco do mundo – e passam a maior parte da viagem zuando um ao outro, na tradição dos filmes americanos de road trip. Trevor esculacha Ben por ele ser basicamente uma enfermeira glorificada com algum problema grave no passado e Ben esculacha Trevor por ele ser um virjão que vai morrer antes dos 20 anos. Apesar disso parecer horrível, olhe para o seu lado e veja aquela seu amigo que foi chifrado pela namorada e me diga se você, no seu papel de melhor amigo, não o zoa de vez em quando quanto à isso. A amizade de verdade permite isso e a última coisa que um deficiente físico e uma pessoa que passou por um trauma horrível no passado precisa é pena, sendo esse o ponto forte do filme.

A face da galudez.

 

Contando ainda com a participação do ídolo teen Selena Gomez, que interpreta uma caronista meio maluquinha e com cara de danada (o que deixa Trevor galudíssimo), Amizades Improváveis é um filme corajoso, que mostra a deficiência física por uma ótica que, do alto da minha pretensa “normalidade”, me parece realista e pertinente, fugindo da pieguice. O tipo de filme que provavelmente só poderia ter sido feito de forma independente, tal qual o foi, mas com orçamento de gente grande.

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