Desde o início da civilização, os grupos sociais atravessam momentos dos mais odiosos e, ainda que cambaleiem, dançando no fio da navalha, parecem vencer os momentos mais delicados, conseguindo manter as convenções que permitem a vida em grupo minimamente harmônica. Apesar do tempo de sua existência e dos pesados episódios pelos quais já passou, a civilização ainda esboça uma fragilidade preocupante, sugerindo um colapso a qualquer tempo, como se um copo completamente cheio até a borda dependesse de uma tímida gota a transbordar seu conteúdo.

Muito embora haja um sem-número de filmes que exploram um lado mais avassalador desse contexto, como em cenários pós-apocalípticos, em que a sociedade se despe de todas as suas máscaras e maquiagens, notamos que o colapso pode começar em espaços menores, no dia-a-dia de cada um, em uma relação conflituosa de um ser para com outro. A sociedade, portanto, não colapsa tão somente no seu todo, mas começa a se destruir quando seus pequenos membros não mais sustentam suas normas.

Garimpo Netflix dessa semana traz três títulos que identificam conflitos, de espaços micros a macros, como um anúncio constante de que a auto-destruição da sociedade parece ser um elemento inerente a ela própria.


Um Passado Sombrio (Every Secret Thing), de 2014, dirigido por Amy Berg

Neste thriller de mistério e drama, estaremos de frente para duas crianças com baixa auto-estima e sentimentos de rejeição constantes. Ronnie (Dakota Fanning) e Alice (Danielle Macdonald) são duas “colegas” que não se encaixam no universo em que vivem, seja por não terem padrões socialmente aceitos de beleza ou por não terem um padrão lógico de construção familiar. Não sabendo canalizar suas frustrações, por serem ainda muito crianças, elas se envolvem em um rapto de um bebê e por isso são encarceradas. Anos mais tarde, conseguem a liberdade e tentam recomeçar suas vidas.

No entanto, tão logo experimentam mais uma vez o sabor de serem livres, um novo desaparecimento de uma criança, com as mesmas características daquele outro, vai colocar as mesmas Ronnie e Alice (agora jovens) em evidência, enquanto a investigadora de outrora, Nancy Porter (Elizabeth Banks) faz de tudo para recuperar o bebê com vida.

Inveja, rejeição, frustração, ódio e amor – alguns dos principais sentimentos de cada indivíduo – serão colocados em destaque, de modo a destruir, pouco a pouco, as relações pessoais de cada um dos envolvidos nesse arranjo de desilusão. Se as relações não se sustentam, tampouco os indivíduos. E se eles não se mantém, a sociedade começa a ruir.

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