O Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir os anteriores.


Seguindo a onda dos Garimpos por nacionalidade das produções, hoje aterrissamos na Coréia do Sul, um dos países cujas obras mais me dão gosto de ver. A capacidade de ser, a um só tempo, visceral, violento, romântico, apaixonado, crítico e inovador é uma das características que mais me agrada no cinema coreano. Para além disso, a forma como a narrativa é desenvolvida e a perspectiva com a qual tratam seus personagens (nunca fazendo juízos de valor vazios ou rasos) tornam o conto um oceano de detalhes e nuances impedindo o velho padrão ocidental maniqueísta. Nada, em um filme de lá, é marcado pelo preto e branco, pelo certo e errado, pelo bom e ruim. Os tons de cinza sobressaem, manchando a pureza de cada um de seus protagonistas, revelando a complexidade da natureza humana.

A técnica presente nesses filmes também é algo a se considerar. Fotografias impecáveis, roteiros profundos e direções muito bem seguras conseguem dar a forma perfeita para estas peças que costumam surpreender seus espectadores. A organização tão falada desta cultura transborda nos títulos que acompanhamos, sendo muito perceptível a atenção dada a cada parte mínima das produções. John Houston, certa vez, falou “filme cada cena como se fosse a mais importante e todo o resto se ajeitará”. Parece-me que a fala do velho John encontra solo fértil do outro lado do mundo, tamanho o cuidado com o qual essas realizações são esculpidas.

Nos três títulos selecionados hoje, todos esses elementos saltarão à sua tela, fazendo-o submergir em um universo preciso de cores, sentimentos, textos e sub-textos. Cada traço do Cinema coreano fala alto e com vigor, seja no silêncio de alguns de seus planos, seja na verborragia gritante de alguns de seus personagens. Não raro, é neste país que vislumbro o elogio do Cinema.


– A Criada (Ah-ga-ssi), de 2016, dirigido por Chan-wook Park

A primeira indicação, propositalmente, é uma obra-prima. A assinatura já dispensa qualquer dúvida. Sempre que vir nos créditos de uma produção o nome Chan-Wook Park saiba que estará de frente para a perfeição. Realizador do – na minha opinião – melhor filme do século XXI (ainda que este século não tenha concluído seu primeiro quarto), Oldboy (e de tantos outros filmes poderosos), Park faz mais um título impactante e de beleza ímpar: A Criada.

Inspirada pelo livro “Fingersmith” de Sarah Waters, a história se passa na Coréia do Sul da década de 1930, quando da ocupação japonesa no local. Sookee (Kim Tae-ri), uma jovem mulher, recebe a incumbência de trabalhar para uma herdeira japonesa chamada Hideko (Kim Min-Hee), que vive com seu tio opressor, mantendo uma vida um tanto quanto isolada dos demais. Sookee, no entanto, planeja se aproximar de Hideko para, junto a um homem, roubar sua fortuna e abandoná-la em um hospício. Porém, seus planos começam a se alterar quando uma identificação com Hideko vai aflorando.

Marcada pela perfeição estética da dupla Park e Chung-hoon Chung (que assina a cinematografia das principais obras do diretor) e recheada por uma trama muito mais rocambolesca do que sugere a sinopse, A Criada desafia seu espectador com plot-twists dignos de Chan-Wook Park, envolvendo cada um de nós em uma teia de ressentimentos, vingança, erotismo e empoderamento.

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