Se no Garimpo Netflix anterior, as três indicações foram de um mesmo gênero, sendo este suspense, a publicação desta semana manterá (por mera coincidência) o formato. Trazendo dois títulos sul-coreanos e um francês, todos carregam em sua estrutura o drama, porém dois deles sendo realistas e naturais, enquanto o terceiro anda por uma linha um pouco mais fictícia. Seguindo esta ordem, respectivamente, abrimos com Eungyo, partindo para Ferrugem e Osso e, então, o mais recente Sonhos Lúcidos.

– Eungyo, de 2012, dirigido por Ji-woo Jung (a.k.a. Ji Woo Chung):

Lee Jeok-yo (Hae-il Park) é um respeitado poeta na casa dos 70 anos de idade. Mentor de um novato, que tenta se lançar no universo da literatura, Seo Ji-woo (Mu-Yeol Kim), que parece guardar profundo respeito ao mestre, visitando-o diariamente e demonstrando especial cuidado no que tange à vida isolada de Lee. Ao que tudo indica, o célebre autor não produzia nada há algum tempo, preferindo permanecer em seu casulo pessoal, rodeado por livros e manuscritos. Seus esforços se resumem a orientar as aspirações do jovem literato. No entanto, esta rotina é completamente abalada com a chegada da belíssima adolescente de 17 anos Han Eun-gyo (Go-eun Kim).

O poeta Lee começa a desenvolver singular atração pela ninfa, que parece provocá-lo sexualmente, mas de maneira extremamente delicada e sutil. Em determinado momento, perguntamo-nos se ela está à procura de uma figura paternal para driblar seus conflitos familiares ou se, de fato, ela tem prazer em gerar sensações ao velho homem. A trama é aquela nossa antiga conhecida, desde que Nabokov escreveu Lolita. Porém, aqui, as situações se dão mentalmente. Lee conhece seus limites; é um mestre em criar e dar vida a mundos que só existem no campo das idéias. E, assim, ele começa a construir uma série de relações, enquanto o contato com a jovem faz ressurgir nele um vigor e uma jovialidade há muito esquecida. Tomado pelo não mais primitivo sentimento do ciúme (quiçá da inveja), Ji-woo começa a se colocar no meio dessa construção complexa e pouco tradicional dos dois personagens.

Eun-gyo e o Lee, em um dos momentos dúbios

O diretor Ji-woo Jung nos faz submergir neste conto, enquanto vemos os personagens dançarem de maneira dissonante em relação à música que eles próprios tentam tocar. Vemos a natureza demasiado humana se fazer cada vez mais presente, num jogo macabro que envolve os sentimentos mais remotos da nossa essência, capazes de destruir o que é belo; de profanar o que é sagrado (não no aspecto religioso); de macular o que é puro.

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