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Uma das cenas mais marcantes da História do Cinema vem daquele que é o melhor filme de ficção científica da História do Cinema, de autoria de um cineasta que se apresenta como o melhor da História do Cinema. Esta sequência é um resumo da História Humana. A obra referida (apropriadamente eleita em 1o lugar em nosso Top 10 – Filmes de Ficção Científica) é “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, quando vai às origens da espécie humana, de acordo com as orientações científicas, apresentando dois grupos de australopithecus separados pelas relações de poder. Um deles detém a posse da água local; o outro é excluído desse recurso. Porém, quando descobrem uma arma e, com isso, aumentam sua força, retornam à região fértil para, através do novo mecanismo, tomarem à força aquilo a que foram negados. Kubrick ilustra ali, muito provavelmente, o que teria sido a primeira guerra dos hominídeos. Ele mostra, acima de tudo, a essência bélica natural destes seres que originaram os homens.

Independente da era, independente do espectro que possa tomar, a guerra surge como uma ação inerente à condição humana. Mas, muito mais do que explosões, conquistas e números, o legado deste conflito afeta povos inteiros, culturas e, principalmente, indivíduos. De um ou de outro lado, seja o homem que atira, seja o alvejado, ou os familiares deixados lá atrás, em casa, todos – absolutamente todos – sofrem as consequências dos atos de ódio que forjam estes seres errantes… nós.

“A crueldade tem um coração humano
Todo homem cumpre seu papel
O terror dos homens que matamos
O coração humano ainda está faminto” (Steve Harris)


– Uma Guerra (Krigen/A War), de 2015, dirigido por Tobias Lindholm

Indicação dinamarquesa para o Oscar 2016, Uma Guerra conta a história de Claus (em boa atuação de Pilou Asbæk), um comandante da Dinamarca em pleno Afeganistão, tendo que se responsabilizar pelas ações de seu pelotão e pelos cuidados aos civis locais enquanto administra os riscos constantes do Talibã e convive com a saudade de casa e de seus familiares. Em uma das investidas de seus homens, Claus necessita tomar uma decisão intempestiva, afetando uma região de civis. Em seu retorno para casa, o bem-intencionado militar terá que passar por um julgamento pela acusação de crime de guerra.

Tobias Lindholm consegue realizar três tipos de filme em um só, não se perdendo em seus núcleos dramáticos, mas conseguindo costurar a narrativa de forma sólida. Temos o momento da guerra, no qual acompanhamos os dias dos soldados e como aquele cenário os afeta psicológica e emocionalmente, fora fisicamente; contemplamos o retorno para casa, entendendo o reforço de seus dramas pessoais, a necessidade de reconstruir os laços sentimentais entre os entes-queridos enquanto a preocupação do ambiente de guerra permanece presente em seu imaginário; e a tensão frente ao julgamento que pode tirar Claus de um inferno para colocá-lo em outro.

Para o mundo, para seu país e para si próprio, Claus não consegue se ver fora de um palco de guerra.

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