Eu tive a sorte de nascer na mesma família que meu primo Raphael (Moreira para os mais chegados, Dinho para mim). Mais do que essa sorte, eu tenho também o privilégio de poder dizer que nosso laço sanguíneo é nada se comparado ao verdadeiro e incondicional laço de amizade que compartilhamos um com o outro desde a infância. Além de ser um brilhante advogado e dono de uma forma física, digamos, “parruda”, Raphael é também uma das maiores autoridades em Hip-Hop desse país e é por causa dele que eu, metaleiro por vocação, afinidade e formação, admiro e consumo também o Hip-Hop, cujas raízes no underground lembram em muito a autenticidade e honestidade do metal.

Foi com ele que eu fui assistir a pré-estreia do primeiro filme indicado aqui (e para o qual o povo meio que cagou no Brasil) durante o Festival do Rio, é por causa dele que eu já sabia de boa parte das coisas que a 3ª obra indicada esclarece e é pensando nele que apresento a 2ª e mais genial de todas as indicações dessa semana, todas elas tendo em comum esse fenômeno cultural que é o Hip-Hop.


– Straight Outta Compton: A História do N.W.A. (Straight Outta Compton), de 2016, dirigido por F. Gary Gray

Niggaz Wit Attitudes (que é o que significa N.W.A.) é o mais lendário, influente e importante grupo de rap da história. Após o surgimento do hip-hop nas grandes festas do sul do Bronx no final dos anos 1970 e de sua relativa popularização com grandes hits como Rapper’s Delight (que foi adaptado e ordenhado ad nauseam em todas as mídias possíveis), os Estados Unidos se mostravam prontos para um novo movimento dentro dessa cultura. Se no início o principal era a batida e as rimas feitas pelos MCs em cima delas falavam sobre coisas triviais e banais como do prazer de dançar, de como a rima do MC era foda e infindáveis apresentações dos demais MCs do grupo, agora o bagulho ficava muito mais sério, ao mesmo tempo que irreverente, muito mais real, ao mesmo tempo que inacreditável.

Formado por gente como Ice Cube (no filme interpretado por seu filho, O’Shea Jackson Jr.) e Dr. Dre (para ficar só nos que hoje são considerados quase que mitos da cultura popular em geral e não só do hip-hop), o N.W.A. é o principal expoente do gangsta rap, vertente do gênero na qual a letra dos raps se tornava mais do que uma mera demonstração da capacidade do MC de rimar e acompanhar a batida, mas uma poesia urbana absolutamente necessária, relevante e atemporal. Em suas letras, Eazy E e Ice Cube cantavam sobre a realidade do povo negro americano, das vicissitudes enfrentadas pelo negro na sociedade, da violência a que estavam submetidos e, porque não, sobre matar policiais.

O’Shea Junior e O’Shea Senior

Com grande repercussão nos EUA, mas meio que escanteada aqui no Brasil, essa biografia do grupo, ainda que tenha um roteiro (que bizarramente foi indicado ao Oscar) um tanto forçado e exageradamente leniente com Dr. Dre e Ice Cube (não por acaso produtores do filme), mostra com competência toda a trajetória do N.W.A. desde a origem dos integrantes até seu status de mega-grupo, deixando claro a relevância do N.W.A. que, finalmente, conseguia que as queixas e agruras da periferia e do povo preto fossem não só ouvidas, mas entoadas em uníssono por todo o resto do país, independe de cor, religião e grupo social, alavancando o rap para um movimento mundial e que não para de crescer desde então.

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