Um dos elementos mais importantes constituidores do nosso ser, seja em seu estado mais subjetivo quanto no mais objetivo possível, se deve, em grande medida, às nossas origens. Aquele que tenta negá-la é malfadado em sua tarefa. As origens são a base do entendimento mais amplo, bem como do mais específico. Remontam, para os que defendem o evolucionismo, a toda uma série incansável de adaptações ou algo que o valha. Ou, em termos mais pessoais, trazem a história de uma linha cronológica, que costura um ser no outro.

O presente Garimpo tem como fio condutor esta noção, porém em seus padrões mais individuais. Tratam-se de histórias cujos personagens demonstram fidelidade à sua origem, mesmo que, em certos casos, impedidos de conhecê-la. Demarca o quanto a identificação com a comunidade (em especial a mais valiosa e primária de cada ser: a família) na qual se insere é, talvez, o seu elemento mais concreto de autorreconhecimento. Três histórias com bases diferenciadas, de países distantes entre si (Índia, Reino Unido e Argentina), permeando classes e etnias completamente distintas, falarão com peso sobre a importância daqueles que são ligados em definitivo pelas suas origens.


Ajji, de 2017, dirigido por Devashish Makhija

Não sou especialista em Cinema Indiano. Vi poucos títulos. Porém, ao que me parece (a não ser que tenha sido azar dos meus encontros com esta cinematografia), há um enfadonho didatismo em suas obras. Um quê de atropelo novelesco em suas tramas e desenvolvimentos. Se essas breves visitas me fizeram criar uma espécie de ressalva a priori com filmes do país, Ajji, da maneira mais direta e enfática possível, resolveu o embate para mim. Trata-se, aqui, de uma pérola, de um verdadeiro garimpo de ouro. Um filme bruto, sensível e sério, em seu sentido mais estrito. Uma obra que não poupa o espectador e que segue determinado em seu conto visceral e necessário.

Ajji (deslumbrante por Sushama Deshpande), uma senhora de casta inferior, vive de forma extremamente humilde em seu casebre, junto com demais familiares. Cada qual procurando uma forma de se sustentar, para manter os mais amados, dia após dia. Mas seu objetivo de vida passa a mudar depois que ela encontra sua pequena neta Manda (delicadamente por Sharvani Suryavanshi) estuprada e largada em um lixão próximo. Percebendo que a polícia não ajudará no caso, pois o estuprador é de uma casta superior e filho de um político influente, Ajji resolve, por si só, honrar (até onde isso é possível) sua neta, a segunda geração que carrega a continuidade do que ela própria é.

Devashish Makhija comanda suas cenas de forma extremamente madura e com vigor, perturbando constantemente o espectador, esmagado pelo tornado de emoções concentrado na simpática avó, sedenta por uma forma de justiça. Ainda que esta se apresente deveras primitiva.

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