O Garimpo é um quadro do MetaFictions no qual indicamos toda semana 3 bons títulos disponíveis nas maiores plataformas de streaming. Clique aqui para conferir os anteriores.


“Proteger e Servir” é o lema da polícia norte-americana. Está estampado em suas viaturas, na mentalidade de seus oficiais, na própria noção da corporação. No entanto, lá (assim como cá) a tal frase de efeito é constantemente alvo de duras críticas por parte da sociedade, devido aos abusos através da “força da lei”, à corrupção de alguns (poucos ou muitos) e ao preconceito de uma unidade que vê no negro um elemento a priori perigoso.

Não estou a dizer que a polícia seja culpada por qualquer coisa. Não estou a fazer um discurso anti-polícia ou pintando os caras com uma visão deturpada. Repare, o problema não é a polícia em si, mas o ser humano. Qualquer um que tenha o poder ao seu lado e a seu favor (e isso não vale tão somente para a corporação em discussão) tenderá a abusar de seu uso, revestindo-se de autoridade como se isso desse “carta-branca” para realizar o ato que deseja. É nessa perspectiva que o “proteger e servir” cai por terra e se torna a supracitada fonte de escárnio por parte daqueles que sofrem com o péssimo uso dessa noção.

Garimpo Netflix da semana traz três títulos em cujas histórias a polícia de lamentável hábito tem um papel-chave. Um drama de história real pesadíssimo, um drama com pinceladas de suspense investigativo e uma comédia de “humor-negro” são os selecionados para colocar em discussão aqueles que bradam com inabalável convicção: “eu sou a lei”.


Fruitvale Station: A Última Parada (Fruitvale Station), de 2013, dirigido por Ryan Coogler

Em 2009, na Bay Area de São Francisco, Oscar Grant, um homem negro de 22 anos, teve sua vida tirada em plena estação de Fruitvale, com um tiro nas costas, enquanto era imobilizado no chão por três policiais e algemado, acusado de envolvimento em briga em um dos vagões do trem durante o ano novo. Ele estava desarmado e havia sido atacado por uma gangue poucos minutos antes. Essa não é simplesmente a sinopse do filme. Isso é o resumo do fato real acontecido com Oscar Grant, não um personagem de filme, mas um pai de família dos Estados Unidos. O episódio fora gravado pelos celulares de várias testemunhas na estação e pode facilmente ser acessado no YouTube.

Essa é a história de Fruitvale Station, o primeiro longa-metragem de Ryan Coogler (diretor de Pantera Negra), que traz o excelente Michael B. Jordan na pele de Oscar Grant, um jovem saído há pouco da prisão e objetivando melhorar sua condição de vida, bem como de sua família: a mulher Sophina (Melonie Diaz) e a pequena filha Tatiana (Ariana Neal). Desistindo das ações fora da lei, Osc (como é carinhosamente chamado pelos amigos) decide focar em arranjar um trabalho e exorcizar todas as relações criminosas de outrora. No entanto, esbarra no desemprego e no preconceito.

O filme explora o dia no qual a tragédia se consumará, conseguindo fazer um lindo e tocante panorama da trajetória de Oscar, em sua perspectiva antiga, atual e aquela que adviria, caso houvesse um futuro em seu destino. Mas os grilhões do preconceito que ainda não foram desatados do povo negro continuam a fazê-los reféns de mentes consumidas por ódio cego.

Um filme poderoso, brutal e pesadíssimo, lindamente atuado, magistralmente dirigido e tristemente real.

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