De acordo com nosso novo formato de Garimpo, buscando entre os serviços on demand para facilitar o contato do leitor com a obra, indicamos hoje mais três títulos presentes na Netflix. Não propositalmente, todos dialogam entre si quanto ao gênero, mas hoje temos aqui uma novidade, já que o terceiro da lista não é um filme, mas uma série. Obras focadas no suspense, apesar de realizadas por culturas diferentes e com pegadas completamente distintas. Irã, Estados Unidos (com essência espanhola) e Coréia do Sul compõem o nosso quadro do dia.


– Sob a Sombra (Zir-e Sayeh), de 2016, dirigido por Babak Anvari

O já analisado por nós, no quadro CinePigmeu, com o curta-metragem Two & Two, Babak Anvari estréia no formato longa com o filme de suspense Sob a Sombra. Estruturado em sua narrativa com os elementos do gênero, o diretor iraniano utiliza como “pano de fundo” o Irã pós-Revolução Cultural e durante a guerra Irã-Iraque para contar a história de uma mãe (Shideh, interpretada com vigor por Narges Rashidi) e sua filha Dorsa (delicadamente atuada por Avin Manshadi), que tentam viver o dia a dia de bombardeios em Teerã da forma mais natural possível, após a convocação do marido Iraj (Bobby Naderi). As ameaças de explosões – que deveriam ser o mais assustador daquelas noites – dão lugar a aparições fantasmagóricas, que parecem caçar a família.

Em paralelo a isso, conhecemos o drama de Shideh, impedida de continuar cursando a faculdade de Medicina, por ter sido acusada de colaboracionista das forças contrárias à Revolução Cultural do Aiatolá Khomeini. Esta particularidade talvez explique o tom sempre sisudo da personagem, que, por vezes, parece não criar profundas relações com os próprios familiares. Shideh guarda consigo o amargo gosto de quem vive sob a tutela de um Estado rígido e sem liberdade. Quase tão sério quanto aquele governo é a educação que direciona à pequena, em casa. As duas, porém, terão que se aproximar cada vez mais durante o conflito que segue por cerca de 90 minutos de filme: a luta pela sobrevivência material e espiritual.

Ameaça material ou espiritual?

Babak Anvari apresenta pontos dessa cultura pouco íntima de nós ocidentais, com uma sequência de planos que nos fazem questionar a figura de um regime com essas características. Utilizando-se metaforicamente dos aspectos sobrenaturais – dialogando diretamente com o caráter religioso do povo islâmico – o diretor faz um sólido relato acerca dos caminhos que seu país toma, bem como das marcas deixadas pelos hábitos comuns aos muçulmanos.

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